Dos dramalhões do século XIX às montagens de vanguarda contemporâneas

A história do teatro no Vale do Aço tem origem no povoado do Calado, atual Coronel Fabriciano onde, em 1941, foi formado o grupo Cordélia Ferreira, que teve renda de espetáculo em Sabará doada para campanha de esforços da II Guerra Mundial.

Texto: José Célio de Sousa

O primeiro grupo teatral de que se tem notícia na região foi formado em Coronel Fabriciano, em 1941, por uma intrépida e idealista trupe formada por representantes do que se poderia classificar como a elite do agitado e efervescente distrito de Antônio Dias – o antigo povoado do Calado desenvolvia-se rapidamente após a construção da companhia siderúrgica Acesita. A julgar pelos raros registros fotográficos do grupo que foram conservados, os atores não eram tão jovens e as atrizes posaram com vestidos muito bem comportados. Os homens estão usando alinhados e bem talhados ternos. A maior parte do elenco feminino era formada por donas de casa e professoras, que tinham a companhia de uma escriturária e de uma comerciária. Entre os atores existiam comerciantes, um dentista e, principalmente, funcionários do escritório regional da Belgo Mineira, instalado no vilarejo em 1937.

Não por coincidência, Antônio Silveira, o criador e principal incentivador do pioneiro grupo amador de teatro, era irmão do primeiro superintendente da Belgo Mineira na região, Joaquim Gomes da Silveira Neto. Entusiasmado pelo teatro e autor de várias peças radiofônicas para emissoras de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, Antônio Silveira também tinha ligações com a siderúrgica de João Monlevade. Logo ao ser nomeado diretor do escritório regional da empresa em Coronel Fabriciano (que deixou de se chamar Calado em 1940), começou a se envolver na formação de um grupo teatral. Em Ferros, sua cidade natal, já tinha montado algumas peças.

Os primeiros integrantes do núcleo selecionado por Antônio Silveira no pequeno povoado, formado basicamente pelo que é hoje o perímetro central da cidade, ensaiavam num barracão de beneficiamento de café gentilmente cedido pelo rico comerciante Silvino Pereira, localizado próximo à sua residência, na rua que hoje leva seu nome. Foi no mesmo improvisado e rústico espaço que, após sucessivos e cansativos ensaios, foi encenada a primeira peça do grupo, A Morgadinha de Valflor, do escritor português Pinheiro Chagas. O drama, em cinco atos, é uma genuína obra do século XIX, com muita intriga e o amor impossível entre uma fidalga altiva e um humilde pintor. O cenário da adaptação montada por Antônio Silveira foi inspirado no mesmo modelo usado por ele anteriormente em Ferros, na apresentação da mesma peça.

Segundo alguns depoimentos e raros escritos autobiográficos dos antigos integrantes do grupo, a representação da romântica peça portuguesa no pacato povoado foi o maior sucesso. Mas, por motivos mais imperiosos, o coronel Silvino Pereira precisou do barracão e as três apresentações seguintes da ‘companhia’ foram encenadas em um palco instalado em um armazém desativado, na atual Rua Silvino Pereira, de propriedade do comerciante de madeiras e fornecedor de carvão José Cândido de Meira, o Zé Vivi. No entanto, o sonho dos atores e atrizes dirigidos por Antônio Silveira em se exibirem para uma plateia maior logo se realizou. O farmacêutico Joaquim de Ávila Neto, conhecido como seu Quincas, transferiu seu estabelecimento para a parte da frente de sua residência e o local vago foi cedido ao grupo teatral. O espaço, que também ficava na atual Rua Silvino Pereira, era um amplo salão que comportava até cem pessoas. Com o apoio louvável da Belgo Mineira foi construído um palco e colocadas cortinas em todas as janelas da imensa sala. A iluminação do recinto também ficou caprichada, com a instalação de globos e um luxuoso lustre no centro do teto.

Grupo Clube Dramático Cordélia Ferreira: pioneirismo na arte cênica no ainda povoado do Calado – Coronel Fabriciano

Espectador ilustre

Até esse momento, o grupo de atores e atrizes amadores de Coronel Fabriciano não tinha um nome. Mas agora podendo se apresentar em um confortável ‘teatro’, a ‘companhia’ devia ter um. Então, em homenagem a uma das pioneiras da dramaturgia no rádio brasileiro, o grupo passou a se chamar Clube Dramático Cordélia Ferreira. Nos anos 1930, Cordélia Ferreira fazia na rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, o que mais se aproxima do que ficou conhecido como radioteatro. Seu programa, O Teatro Pelos Ares, eram peças ligeiramente adaptadas para o rádio e foi um grande sucesso na época. Foi casada com o rádioator Plácido Ferreira e faleceu com 100 anos de idade.

Além das peças teatrais, apresentadas invariavelmente aos domingos, o Clube Dramático Cordélia Ferreira exibia números infantis, bailados variados e canções, especialmente valsas. Nestes casos, o elenco era formado por Idália Santos, Nizete Pereira, Alvina Barros e Juvenal Moraes. A primeira peça encenada pelo grupo, agora com nome oficial, foi Ah! Se o Anacleto Soubesse, texto escrito em 1931 pelo autor brasileiro Paulo Orlando. A trama, em três atos, conta a história de Anacleto, um homem excêntrico que é escravo da esposa dominadora e vê em Tobias, seu melhor amigo, uma saída para escapar de casa e aproveitar a vida noturna. Por ocasião da estreia do grupo teatral amador do interior de Minas Gerais, a própria Cordélia Ferreira saudou todo o elenco em seu concorrido programa transmitido em horário nobre pela rádio Mayrink Veiga.

A peça de estreia foi encenada por Mariana Roque (Filó), Adélia Roque (Joana), Nizete Pereira (Fifi), Marizete Pereira (Zazá), Antônio Silveira (Anacleto), Francisco Santos (Gilberto), Leandro Pacífico (Lourenço) e Ramiro Camargo (Policial). Aos poucos as apresentações do Cordélia Ferreira foram atraindo cada vez mais espectadores. Um dos mais ilustres era justamente o diretor geral da Belgo Mineira, o engenheiro luxemburguês Louis Jacques Ensch. Em suas visitas ao Calado para inspecionar o trabalho do escritório regional da empresa, ele e sua comitiva assistiram duas peças do grupo. Uma foi Não Me Conte Este Pedaço, de Miguel Santos, e a outra, Chuvas de Verão, de Luiz Iglesias, autor que tinha sua própria companhia teatral e foi casado com a atriz Eva Todor.

Renda como esforço de guerra

Segundo depoimento de Gilson Lana, o engenheiro Louis Ensch (falecido em setembro de 1953 em Luxemburgo – suspeita-se que tenha suicidado – e sepultado em João Monlevade a seu pedido, com seu corpo vindo de navio até o Rio de Janeiro), ficou tão fã do grupo que o convidou para se apresentar no Cassino Siderúrgica, em Sabará. O suntuoso e elegante recinto era mantido pela Belgo Mineira para recepções, bailes e jantares festivos da empresa, fundada em dezembro de 1921 na cidade com investimentos belga-luxemburguês. O local era mobiliado com móveis de jacarandá e piso ornamentado por mármore italiano.Todas as despesas da turnê foram financiadas por Louis Ensch, a peça apresentada foi Feitiço, texto em três atos escrito por Oduvaldo Vianna, autor, diretor, produtor e roteirista de teatro e cinema, pai do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, morto precocemente em 1974. A apresentação do Cordélia Ferreira em Sabará foi tão cercada de requinte que o público teve que se trajar de acordo com o figurino elegante da época. O Brasil estava engajado na II Guerra Mundial e a renda do espetáculo foi revertida em benefício dos esforços que o país fazia durante o conflito.

Durante a peça o personagem Paulo, interpretado pelo dentista Juneval Moraes, executou e interpretou um tango ao violão, cena que arrancou calorosos aplausos da plateia não apenas pela voz do artista amador como pelo seu castelhano perfeito. Ele era marido de outra integrante do grupo, Edith Mota Moraes, que depois ingressou na política e foi presidente do PDT fabricianense e ainda hoje reside na cidade. Ao que tudo indica, o grupo teatral fabricianense causou furor na histórica Sabará. Meses depois, por ocasião da inauguração do Teatro Municipal da cidade, a trupe foi novamente convidada para duas apresentações. Segundo Gilson Lana, dessa vez o sucesso foi ainda maior. As peças Balduino e O Maluco Nº 4, ambas de Armando Gonzaga, jornalista e teatrólogo carioca falecido em 1953, foram interrompidas por aplausos entusiásticos do público.

Críticas elogiosas

Gilson Lana relembrava com muita sensibilidade dos antigos colegas. Ele entrou para o Cordélia Ferreira em 1942, ano em que chegou a Coronel Fabriciano para trabalhar no escritório regional da Belgo Mineira, onde se aposentou em 1977. Trabalhou em seguida 27 anos como tesoureiro do sindicato dos motoristas, o Sinttrocel. Além de sua dedicação ao teatro amador, Gilson Lana produziu um valioso registro fotográfico de Coronel Fabriciano dos anos 1940 e 1950. As fotos mais conhecidas do Cordélia Ferreira são de sua autoria. Parte de seu acervo foi doada ao recém criado museu da cidade. Segundo ele, além de Sabará, o grupo teatral fabricianense apresentou-se em Governador Valadares, João Monlevade, Rio Piracicaba e Nova Era, onde foram exibidas duas peças no Cine Teatro: Aventuras de Um Rapaz Feio, de Paulo Magalhães, e Não Me Conte Este Pedaço. No Cine Teatro de Governador Valadares também foram montadas duas peças, Dione de Rione, de Roberto Gomes, e As Aventuras de Um Rapaz Feio. Todas as apresentações do grupo eram anunciadas nos jornais locais, cujos críticos sempre elogiavam os espetáculos. Outras peças montadas pelo Cordélia Ferreira foram A Ditadora, A Feia, Cala a Boca Etelvina, Fantoche, Onde Está a Felicidade?, Guerra dos Deuses, Gaspar Cacete, Berenice e Antônio, o Marinheiro.

O galã era bombeiro hidráulico

A estrela do grupo dirigido por Antônio Silveira era Naná Roque, sua namorada na vida real e irmã de mais três componentes do Cordélia Ferreira: Adélia (esposa de Wilkes de Barros, funcionário da Belgo), Mariana e Durvalina. Esta, segundo um breve histórico sobre o grupo escrito por Antônio Silveira e enviado a Gilson Lana no início de abril de 1999, era uma modista de classe atualizada que cuidava dos modelos especiais das apresentações. “Irreverente e alegre, estava sempre com o astral alto e perto dela ninguém tinha o direito de ficar triste”, relembrou Antônio Silveira. De acordo com seu depoimento, Naná Roque, a principal atriz do elenco, tomou parte em quase todas as apresentações do grupo, interpretando principalmente papéis dramáticos, como em Berenice e Diana de Rione. Os papéis masculinos centrais eram sempre representados por Leandro Pacífico, um bombeiro hidráulico da Belgo Mineira. Ele também era o carpinteiro, o eletricista e o cenógrafo do grupo. Suas funções eram de extrema importância para a ‘companhia’. Mariana Roque Pires, ainda segundo o relato de Antônio Silveira, “dispensava a direção”. A primeira professora de Coronel Fabriciano agarrava-se ao papel de forma profunda, “desvestindo sua personalidade e assumindo a do personagem”. Ela era ainda a responsável pelas atrizes mais jovens durante as excursões. Um pré-adolescente, Tatão de Sá, filho de um açougueiro, era o contrarregra do grupo. Era também responsável por abaixar e levantar o pano do palco, acompanhando o grupo em todas as excursões. Geralda Fagundes e Celita Barros, esposa do comerciante Alberto Giovannini, também integravam o Cordélia Ferreira.

Jovem atriz e tesoureira

Em quase todas as fotografias do grupo tem uma mocinha no meio dos atores e atrizes. É Cristina Savernini, que trabalhou como voluntária mais de 20 anos no setor de Comunicação Social e Valorização da Vida da Polícia Militar em Coronel Fabriciano. Entrou para o grupo teatral aos 12 anos de idade, mas foi capaz de no início da entrevista relembrar da letra completa de uma música cantada por uma personagem durante a peça Onde Está a Felicidade?, encenada em meados dos anos 1940. Além de integrar o elenco feminino, ela era a tesoureira do grupo. O Cordélia Ferreira subsistia graças à contribuição assídua de um quadro de sócios não muito numeroso, mas que andava sempre em dia com as prestações. Curiosamente, não eram vendidos ingressos nas apresentações locais do grupo, que mesmo assim, conseguia imprimir convites de alta qualidade na Gráfica Irmãos Salles, de Governador Valadares, para as apresentações e bailes de carnaval. “Como conseguir esse milagre? Só Cristina Savernini poderá explicar”. A pergunta e imediata resposta são do próprio Antônio Silveira no texto escrito por ele.

Filha de Ângelo Savernini, encarregado dos serviços de carpintaria da Belgo Mineira, a ex-dublê de atriz e tesoureira relembrou com muita emoção dos momentos vividos no Cordélia Ferreira. “Todos eram muito unidos e gostavam do que faziam. O trabalho do grupo era admirado pelas pessoas e as apresentações estavam sempre lotadas”. Seu pai, descendente de italianos, entrou para a Belgo em 1936, morando primeiramente em Ipatinga. Hábil profissional, Ângelo Savernini trabalhou na construção da antiga ponte de madeira sobre o rio Doce, substituída depois pela Ponte Metálica. Trabalhou também nas construções do Hospital Siderúrgica (atual São Camilo), Cine Marrocos (atualmente desativado) e na Casa de Campo da Belgo Mineira (hoje Clube Casa de Campo), todas as obras em Coronel Fabriciano.

Em seu depoimento a Caminhos Gerais, Cristina Savernini disse que o Cordélia Ferreira encerrou as atividades no final dos anos 1940, depois que Antônio Silveira desligou-se do escritório regional da Belgo e mudou-se para Belo Horizonte e depois Rio de Janeiro, onde continuou escrevendo para várias emissoras. Seu último encontro com ele ocorreu em Ferros há cerca de 15 anos. “Sem me identificar fui até sua casa e, depois dos cumprimentos, perguntei se ele me conhecia. ‘Nunca te esqueci’, foi sua resposta”, recordou emocionada Cristina Savernini. O criador do importante e pioneiro grupo teatral amador faleceu pouco tempo depois em sua cidade natal.

No então povoado do Calado, pertencente a Antônio Dias, atual Coronel Fabriciano,  o Grupo de Teatro Cordélia Ferreira na década de 1940, já figurava como importante referência artística e cultural no interior mineiro

O show (e os espetáculos) não podem parar

Vários grupos teatrais da região mantêm a antiga chama dos anos 80 e 90; e novas companhias desenvolvem trabalhos com contextos sociais contemporâneos

Um dos poucos grupos teatrais em atividade em Coronel Fabriciano é o Rizoma. Seus principais integrantes são profissionais com experiência e formação nas áreas de teatro, cultura afro-brasileira, pedagogia, filosofia, psicologia e educação física. Como eles próprios se definem, são “atores-educadores” que trabalham com crianças e jovens de diferentes contextos sociais e culturais. A primeira montagem do Rizoma aconteceu em 1990, com a produção do espetáculo A Aurora de Minha Vida, de Naum Alves de Souza.

Deste então, o grupo se caracterizou pela conexão e participação em diferentes movimentos culturais – além de promover montagens coletivas. “Possuímos um núcleo contínuo que desenvolve ações coletivas e também é aberto à participação de outros grupos, formando assim uma rede de ação cultural”, explica o fabricianense Gilson Magno de Souza, coordenador do Rizoma. Professor de filosofia e teatro, ele também é coordenador dos projetos Arte EnCena (destinado a estudantes do Ensino Médio) e Teatro Universitário.

Além dele, fazem parte do Rizoma, Márcia Maria Almeida Figueiredo, Roberto Yokel, Sonaly Torres Silva Gabriel, Tiago Grande, Cesar Henrique da Silva, Rosalva Silva Campos e Jéssica Oliveira Ribeiro. Outro grupo em atividades na cidade é oTaracatum, formado por jovens estudantes e dirigido por Gilson Magno. Um dos trabalhos mais renomados do grupo tem como base uma pesquisa sobre as fábulas do escritor francês La Fontaine, que é apresentado gratuitamente em várias cidades através do projeto Interferências Cênicas-Região do Rio Doce, realizado por Ricardo Maia.

Em Timóteo, várias novas trupes desenvolvem trabalhos interessantes como o Culturaço, Vila Teatro, Daniela Alves, Cia. Mega-Cena de Teatro e a Cia. Trupe da Alegria, criada em 2005 pelos atores Rômulo Amaral e Maíra de Souza. O grupo iniciou suas atividades com intervenções artísticas em eventos e festas infantis, além da criação de espetáculos educativos para eventos e empresas da região. Também fazem parte da trupe como colaboradores, Mari Antonaci, Chrika Oliveira, Filipe Fernandes, Breno Almeida, Geleia, Francis Fernandes, Dani Alves, Dani Mattos, Mariana Souza e Kelly Juliane.

Em 2010, a primeira montagem do grupo, O Menino e a Árvore, circulou por diversos espaços culturais e foi selecionado em importantes festivais nacionais de teatro, conquistou 18 prêmios, como melhor cenário, melhor direção, melhor trilha sonora, melhor ator, melhor atriz, excelência profissional, entre outros. Atualmente, o grupo está circulando com outro espetáculo infantil, Pedrinho e Aninha na Terra Encantada, que conquistou cinco prêmios no Festival Nacional de Teatro de Peçanha. A expectativa da companhia é iniciar a montagem de mais um espetáculo, para o qual está buscando patrocínio.

Em Ipatinga, além dos já citados Grupo Farroupilha, Perna de Palco, Cia. Corpo de Prova e Boca de Cena, os principais grupos em atividade são a Cia. Bruta de Teatro, o Espaço Cultural Casa Laboratório (que recentemente abriu um espaço em Timóteo) e o Circo Fool. Mas um dos movimentos de maior resistência é a Casa Cult Darci Di Mônaco. Criada como espaço para abrigar as artes cênicas, em especial o trabalho do Grupo Cleyde Yáconis, fundado por Darcy Di Mônico, o espaço iniciou suas atividades em fevereiro deste ano.

Localizada no Cariru, a Casa Cult está se tornando um point não somente do teatro, mas também da cultura no bairro. “Darci é o patrono do nosso teatro e ficará eternizado em nossa memória, tudo o que temos e somos vêm dele”, afirma Isabella Ribeiro, responsável pelo espaço. Atualmente a Casa Cult oferece um Curso Livre de Teatro Semiprofissionalizante, com encerramento em outubro. O espaço serve ainda para ensaio de inúmeros outros grupos.

Darci Di Mônaco: patrono da Casa Cult – em cena da peça Para Que Não Me Ames Depois – Foto: Rodrigo Zeferino/Grão Fotografia

Elitismo versus cultura popular: a luta continua

Atuante produtora cultural no momento, Eliane Santos reconhece que hoje o teatro tem mais apoio (leis de incentivo cultural), espaços, e divulgação (redes sociais) do que no passado. Primeira diretora artística da Casa de Cultura, ela diz que sempre driblou as dificuldades fazendo trabalhos de boa qualidade, mas a baixo custo. “Uso menos cenários e figurinos. Porém, a sonoplastia tem que ser ótima. Mas o mais importante é deixar que a performance dos atores fique em primeiro lugar.”

Perguntada se existe um elitismo na cultura em Ipatinga ou é apenas um comentário malicioso, Luzia di Resende respondeu que a “cultura é elitista no país”. E completa: “Ainda não temos um reconhecimento de toda a comunidade para se apropriar das manifestações culturais, tomá-las como seus. Vários coletivos de trabalho procuram oportunizar a todos e oferecem arte em espaços públicos, tornam públicos os seus espaços, abrem as casas para receber, mas muitos ficam ainda sem acesso. E a falta de apoio e recursos também é uma questão da política pública. A cultura não é reconhecida como um bem, um elo de identidade da população”.

O veterano José Lopes Sobrinho reconhece que o teatro sempre foi visto com viés elitista, embora, segundo ele, em Ipatinga se realizam diversas campanhas de promoção do teatro. “Quem não consegue patrocínio oficial é que diz que existe elitização”, afirma. “Montam-se peças em uma semana. Os atores não decoram nem o texto e até usam ponto. Não se respeita o público”, reforça Ademar Pinto Coelho, cuja bem-sucedida e aplaudida parceria com Francismar Vasconcelos, o Show Riso, está completando 24 anos de criação. Os dois apresentam ainda o aclamado Armazém da Viola, no teatro do Usicultura.

Já Ricardo Maia, que em 2005 foi agraciado com a Medalha da Inconfidência por seu trabalho cultural, considera que o teatro que se faz hoje na região não é diferente do que está acontecendo no resto do país. “Existem poucos eventos de qualidade, com textos mais elaborados e de maior densidade. O que predomina é a praga do besteirol. Ou você fica repetitivo ou anda na contramão, sem visibilidade e sem patrocínio”, critica Ricardo Maia, que atualmente promove cursos de artes cênicas para comunidades do Vale do Rio Doce, trabalho desenvolvido para o Instituto Cenibra.

A sempre atuante Rosalva Silva reclama da falta de políticas públicas na promoção do teatro regional. “É uma luta. Fazemos teatro por paixão. Faltam patrocínios e o poder público fica a dever”. No entanto, ela vê esperança na criação do Conselho Municipal de Cultura, em Coronel Fabriciano. O multimídia Ronaldo Lampi, que em novembro terá uma retrospectiva dos nove longas e seis curtas em que atua, numa mostra preparada pela Casa Laboratório de Ipatinga, além de coordenar uma oficina de teatro, critica a falta de apoio oficial para a construção do Cine Teatro Usina Dramática em Timóteo. “Mesmo com o trabalho voluntário de vários arquitetos, a parceria com a Casa Laboratório e a comprovação de recursos, eles não deram a mínima. Não quero mais construir teatro algum em Timóteo. Estou investindo em projetos aqui em São Paulo”. O experiente Gil Ferreira é radical: “Faltam apoio para os jovens que se interessam por teatro em Timóteo. As pessoas vão ao teatro porque dá status. Mas valeu a pena, porque não faço teatro por dinheiro”.

Segundo Venilson Araújo Vitorino, presidente da Fundação Aperam Acesita, os critérios para escolha das peças regionais para a programação da instituição tem como objetivos “promover o crescimento cultural e artístico da comunidade, identificando, fortalecendo e divulgando os grupos e artistas da região”. Ainda segundo ele, a agenda cultural da Fundação Aperam Acesita é elaborada e disponibilizada bimestralmente aos artistas e grupos regionais. “Durante o ano é possível atender quase que a totalidade os artistas e grupos teatrais da região. Em 2013 foram realizados mais de 100 espetáculos culturais entre música, dança, teatro e exposições que envolveram mais de 1.100 artistas e beneficiaram aproximadamente 45 mil pessoas. A maioria dos artistas envolvidos na grade cultural foi do Vale do Aço”, ressaltou Venilson.

Teatro da Fundação Aperam Acesita: único em Timóteo

Casa de Cultura do Vale do Aço

Um sonho utópico numa época perigosa e vigiada pela censura federal

Parte do terreno onde funciona hoje o Hospital São Lucas, no bairro Santa Terezinha II, em Coronel Fabriciano, pode ser considerado um local sagrado para a história do teatro regional. Fruto do sonho, do trabalho e dos recursos pessoais do médico neurologista Carlos Vieira, a Casa de Cultura do Vale do Aço foi construída no referido espaço, em 1978. O grupo, formado por Carlos Vieira, reuniu vários atores e atrizes amadores que se tornariam responsáveis pela concretização do teatro no Vale do Aço.

Seu mais influente colaborador foi o premiado diretor Walmir José, que desde os anos 1960 vinha atuando no movimento teatral belo-horizontino e em 1973 ingressa no primeiro grupo profissional de Minas Gerais, o José Mayer Produções. Um ano antes da criação da Casa de Cultura, Walmir José encenou, em 1977, no Salão Paroquial de Coronel Fabriciano com um grupo teatral de Belo Horizonte, a peça de Henrik Ibsen, Um Inimigo do Povo.

A experiência foi fundamental para a organização do primeiro núcleo formado por Carlos Vieira, que em 1978 montou sua primeira peça, O Auto da Compadecida, apresentada no Clube Casa de Campo (Coronel Fabriciano), Teatro Alfa (Timóteo) e Academia Olguin (Ipatinga). Na Casa de Cultura do Vale do Aço, Walmir José dirigiu seis peças, entre elas, O Auto da Compadecida (Ariano Suassuna), Um Edifício Chamado 200 (Paulo Pontes), Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto), Fala Baixo Senão Eu Grito (Leilah Assunção) e Alegro Desbum (Oduvaldo Vianna Filho).

Olhar vigilante da censura

O núcleo inicial da Casa de Cultura do Vale do Aço era formado pelo casal Waldejur e Manoelita Lustosa (ambos falecidos, ela recentemente), Ailton Avelino, Fábio Brasileiro, João Nery, Christina Tárcia, Ricardo Maia, José Nazareth e Afonso Lana. O grupo se reunia na Câmara Municipal de Coronel Fabriciano e na residência de Carlos Vieira. O movimento cresceu e em 1978 começou a ser construído o teatro do Caladinho, cuja peça de estreia, em 1979, foi Um Edifício Chamado 200, com direção de Walmir José. Posteriormente, também fizeram parte da Casa de Cultura, o músico Domingos Tibúrcio, Ben Hur Sneha, Creuza Costa, Conceição Garavini, Geraldo Correia, Júlia Chaves, Ducarmo Mendes, Graça Pizano, Leonardo das Graças e Rosa Godoi. Em 1979, o elenco foi reforçado por Eliane Santos, José Dutra e José Lopes, vindos do grupo Quebra-Cabeça, de Ipatinga. José Dutra e Eliane Santos atuaram juntos em uma remontagem do O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, sob a direção de Walmir José; e em O Berço do Herói, de Dias Gomes, direção de Waldejur Lustosa.

A segunda peça encenada na Casa de Cultura, Morte e Vida Severina, teve que ser submetida à censura da Polícia Federal, em Belo Horizonte, e foi liberada para ser apresentada com prazo de validade, até o dia 30 de outubro de 1979. Em 1981, outro espetáculo montado pela Casa de Cultura, O Berço do Herói, também passou pelo olhar vigilante da ditadura militar. O polêmico texto de Dias Gomes, que deu origem à novela global Roque Santeiro, teve direção de Waldejur Lustosa e remontagem em 1982 durante o Festival de Teatro de Minas Gerais, o Festiminas, realizado em Coronel Fabriciano. A peça marcou também o fechamento da Casa de Cultura do Vale do Aço, que encerrou suas atividades em 1983.

Em um depoimento escrito, o médico Carlos Vieira diz: “A Casa de Cultura nasceu no meu íntimo como tentativa de adaptação da minha realidade com a de outras pessoas, num determinado contexto social vigente contemporaneamente, e se transformou logo em ‘projeto’ – fruto de conversas-debates com um grande número de pessoas ligadas às áreas da cultura e da educação na região e em Belo Horizonte. Logo de início senti que aquele sonho (utópico para alguns, resultado de minha megalomania, de meu narcisismo, de minha vontade de poder, de minha solidão…para outros) passava a assumir para mim significado vital e para o qual estava canalizando a maior parte de minha energia e com a maior felicidade”.

Grande público assiste a peça Morte e Vida Severina, apresentada em 1979 na Casa de Cultura

Teatro no currículo escolar

Atualmente trabalhando como produtor de audiovisual, Ailton Avelino, aos 17 anos de idade, integrou o primeiro núcleo formado por Carlos Vieira e atuou em todas as peças montadas no teatro do Caladinho. Em 1984, junto com Ricardo Maia e os irmãos Cícero e Cid Silva (músico) formou o grupo Poesia na Praça. No final do mesmo ano, por indicação de Walmir José, passou no teste para gravação da premiada minissérie Grande Sertão: Veredas, da TV Globo, onde figurou como um jagunço. Depois de viver no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, onde trabalhou em peças infantis, voltou para Coronel Fabriciano.

Em 1994 participou do movimento Marginália, que recitava poemas de poetas marginais e em 1996 fundou a Criarte Vídeo Produções. Atuou ainda como Judas nas encenações da Paixão de Cristo, na Catedral São Sebastião, de Coronel Fabriciano. No momento participa do grupo Ponto da Poesia, do qual fazem parte Jairo Guimarães, Gil Ferreira, Vianey Anízio e Elisangela Damasceno. “A experiência de participar de um curso de teatro na minha juventude foi um descortinar de horizontes, uma descoberta de novos valores. O teatro devia virar matéria obrigatória no currículo escolar”, afirma Ailton Avelino, que confessa ter um apreço inestimável por Carlos Vieira.

Ailton Avelino, 2º da esq.: ao lado de Tarcísio Meira, ator fabricianense atuando na mini série da TV Globo “Grande Sertão Veredas” em 1984

Lutando contra a corrente

Grupo fabricianense não montou peça de Guarnieri por falta de recursos

Antes mesmo da fundação da Casa de Cultura, em meados de 1973 os irmãos Carlos Passos e Fábio Brasileiro desenvolveram em Coronel Fabriciano uma oficina de preparação de atores com professores de Belo Horizonte. Nascia assim a Cia. AATAA, cuja primeira montagem foi O Cavalinho Azul, de Maria Clara Machado. Na época, ainda um adolescente, Fábio Brasileiro fez o papel principal do menino Vicente. A direção foi de Carlos Passos e a estreia da peça aconteceu no Salão Paroquial da cidade. Em fevereiro de 1978, quase a mesma galera da Cia. AATAA funda o Grupo de Teatro Leme, um dos primeiros movimentos culturais da região. O surgimento da trupe é muito interessante. Na época, Fábio Brasileiro, atualmente secretário municipal de Cultura, Esporte e Lazer de Governador Valadares, trabalhava na Usimec junto com Vianey Anízio, que hoje faz parte do grupo Poesia na Praça e desde 1995 faz carreira solo com o personagem Juventino das Mercês, decidem se envolver com a arte teatral. Fábio Brasileiro, com 19 anos de idade, pede demissão da empresa, mas Vianey Anízio, com 22 anos e apenas três meses de casado, não se atreveu a entrar na aventura sem o amparo sólido do emprego. Mas entrou para o grupo, do qual fizeram parte Júlia Chaves, o futuro vereador Humberto Medeiros, o atual advogado João Costa, o hoje renomado músico Domingos Tibúrcio e Carlos Silva.

Os ensaios e oficinas do grupo Leme eram realizados na cantina do Grupo Escolar Pedro Calmon. No final de 1979 tentam montar a famosa peça Um Grito Parado no Ar, de Gianfrancesco Guarnieri. Mas, por falta de recursos financeiros, são obrigados a encenar O Voo dos Pássaros Selvagens, de Aldomar Conrado, apenas com três atores: Humberto Medeiros, João Costa e Júlia Chaves. O espetáculo é encenado no Teatro Alfa (Timóteo) e Cine Marrocos (Coronel Fabriciano), onde também é apresentada a peça Nó Cego, de Carlos Vereza. Sempre lutando contra as adversidades, o Grupo de Teatro Leme ainda monta a peça infantil O Cavalinho Azul, de Maria Clara Machado, no Cine Marrocos e na Casa Paroquial de Coronel Fabriciano.

Em 1982, sem condições de continuar com o voluntarioso trabalho, o grupo deixa de existir. Mas, ao mesmo tempo, Fábio Brasileiro dirige em Governador Valadares o Grupo Temucorda em sua montagem do Ponto de Partida e ministra oficina numa nova trupe chamada Corpo e Alma. O grupo pesquisa novas linguagens e estéticas, o que resultou em vários prêmios em festivais nacionais. Na década de 80, depois de participar da Casa de Cultura do Vale do Aço, Fábio Brasileiro contribui na formação do Grupo Salazar de Cultura, criado no campus da antiga PUC, hoje Unileste. Nos anos 90, depois de uma especialização no Rio de Janeiro no Teatro do Oprimido, dirigido por Augusto Boal, funda o Centro de Teatro do Oprimido do Vale do Aço.

Agitador cultural

Com o fim da Casa de Cultura, em 1983, todos os equipamentos do teatro fechado foram doados ao Instituto Católico de Minas Gerais (ICMG), atual Unileste, que possuía um pequeno auditório para palestras e eventos. É aí que entra em cena um dos mais importantes personagens do teatro regional. Ator, diretor e iluminador, Ricardo Maia tinha ingressado na Casa de Cultura aos 17 anos de idade, mas agora dedicaria todo seu esforço à reestruturação do novo teatro. “Mesa de luz, projetores e toda a parte de cenotecnia foi levada para o ICMG, que já apresentava necessidade de possuir esses equipamentos em virtude de um grupo de teatro que estava se formando no curso técnico”, relembra Ricardo Maia.

Segundo ele, como o movimento da Casa de Cultura foi uma referência em todo o estado de Minas Gerais, era de interesse da cidade que o movimento teatral tivesse prosseguimento. Além da participação do governo municipal, empresas da região destinaram recursos à reforma do auditório. “Foi um trabalho conjunto. A Usiminas doou o sistema de ar-condicionado, a Associação Pro-Cultura de Ipatinga (Aproc) ajudou também. Vários esforços tiveram que ser unidos para que a obra fosse realizada. Durante toda a década de 80, o teatro do ICMG (hoje Teatro João Paulo II) consistia no grande palco artístico da região do Vale do Aço”, ressalta Maia, que em 2008 deixou o Unileste.

Atualmente com 350 lugares, o Teatro João Paulo II é palco para espetáculos contratados pelo Unileste como para eventos particulares. Segundo Élida de Oliveira Barroso, do Departamento de Eventos e Cultura do campus, a programação do teatro está definida até o final do ano. Em setembro serão apresentadas as peças Olha Quem Veio Buscar a Noiva (Cia. Mega-Cena), Empregada Quase Perfeita, Fábulas de La Fontaine (Grupo Taracatum), o musical do grupo Nozes e Vozes e o espetáculo infantil PeppaPig em Brincadeiras e Cantigas de Rodas.

Ricardo Maia: reverenciado pela atuação e incentivo ao teatro regional – in memorian

Uma peça revolucionária

Ao contrário de Coronel Fabriciano e Ipatinga, em Timóteo os movimentos culturais estiveram sempre ligados mais ao cinema e à música. Entre 1976 e 1981 foi formado o Cineclube Knocks, palavra de origem russa que significa “amantes do cinema”. Sob a coordenação de Gilberto Araújo, que hoje vive em Belo Horizonte, o grupo era formado por jovens oriundos de outros movimentos, principalmente do Alfa, contando ainda com a participação da historiadora Christina Társia e da atriz Manoelita Lustosa. O principal evento promovido pelo Cineclube Knocks foram as sete edições da Semana do Cinema Brasileiro, quando aqui foram lançados vários filmes, como Beijo no Asfalto, O Homem Que Virou Suco e Gaijin. No início dos anos 1970 foi realizado o Festival de Música Popular de Acesita, que antecedeu o Festival Uirapuru, evento de enorme sucesso nos anos 80 e que será reativado em outubro.

Em relação ao teatro, embora tenham ocorridas várias apresentações bem amadorísticas em Timóteo nos anos 60, só no final da década seguinte que foi montada a peça que causou grande polêmica e ainda hoje é relembrada como um ato de resistência contra o controle mantido pela Acesita aos seus empregados. Escrita por Danilo Fochetti, um funcionário da siderúrgica, O Apito criticava o alarme que soava diariamente três vezes ao dia marcando o cotidiano dos operários. O apito das 22 horas servia para avisar um novo turno e que também estava na hora de todos se recolherem às suas casas. Censurada pela Acesita, a peça teve duas únicas apresentações no antigo Elite Clube e seu autor foi demitido da empresa. “O Apito foi uma montagem revolucionária. Embora Danilo Fochetti tenha ficado muito decepcionado com a perseguição sofrida, por outro lado ele ficou muito orgulhoso, porque a Acesita acabou extinguindo o famoso apito”, revela Waldemar Moreira Fernandes (Dema), responsável pelas fotos que foram exibidas como slides no início da peça, que contou com a participação de ChistinaTárcia e Manoelita Lustosa.

Junto com Ronaldo Lampi, o mímico Gil Ferreira é um dos grandes nomes da cena artística de Timóteo, cidade onde nasceu. Já na escola primária mostrava seu interesse pelo teatro e aos 14 anos foi convidado para fazer parte do elenco do programa humorístico Balança Mas Não Cai, sucesso da TV Globo nos anos 60 e 70. Em 1983, recebeu convite do ator Cacá de Carvalho para fazer um curso de mímica em São Paulo. “Ele me disse que eu era mímico por natureza. Só precisava aprender as técnicas do ofício”. Em um gesto instintivo, Gil Ferreira abandonou o emprego e se mandou para a capital paulista. Detalhe: o futuro aprendiz de mímica tinha apenas doze dias de casado.

Em São Paulo, Gil Vicente, ele trocou seu sobrenome apenas recentemente, foi estudar mímica com a renomada Denise Stoklos. No início dos anos 90, voltou para São Paulo para trabalhar no Grupo Claro, mas, dois anos depois, juntou-se a Darci Di Mônaco, Adão de Faria e Gilberto Lainha. Montaram espetáculos de sucesso como Uma Peça Íntima ou Síndrome de Electra, Dom Quixote e Medéia. Atualmente Gil Ferreira participa do grupo Ponto da Poesia, do qual fazem parte Jairo Guimarães, Vianey Anízio e Elisangela Damasceno.

Ponto da Poesia: arte e poesia em espaços públicos

Um artista multimídia

O ator e músico Ronaldo Lampi, assim como Gil Ferreira, é também natural de Timóteo. É o artista que levou o nome da cidade para mais longe. Começou sua carreira interpretando um personagem bem popular de nome Zé Povo, “o palhaço de todos os dias”, conforme sua própria definição. As performances eram realizadas em locais públicos e em manifestações políticas e sindicais. Numa sátira ao cenário político local, Zé Povo candidatou-se a prefeito de Timóteo em 1988 e obteve quase 2 mil votos nas urnas. O personagem fazia discursos em praça pública e invadia os comícios de verdade. Lampi também participou da criação do 1º Festival da Música Popular de Acesita (Fempa) e em 1990 foi para o Rio de Janeiro estudar com Augusto Boal.

Em meados dos anos 90 foi para Trancoso (BA) e construiu o Teatro Estação, com capacidade para 500 espectadores e onde os próprios artistas moravam. Morou depois dois anos na Europa desenvolvendo oficinas de teatro e de construção de instrumentos. Em 2001, em São Paulo, fundou com mais dois amigos o espaço Paulista Cultural, mantendo paralelamente a banda De Carona, que gravou dois CDs. Em sua carreira, Ronaldo Lampi trabalhou em 22 espetáculos teatrais, 20 curtas (oito de sua autoria), quatro novelas, 16 longas e várias séries de TV. Em março deste ano participou da gravação do filme inglês The RiseanFallof A White Collar Hooligan 3, do diretor Paul Tanter.

Ronaldo Lampi: do teatro para o cinema

 

Fora do palco (e do sério!)

Em cena, atores e grupos que procuram conceitos mais irreverentes e múltiplos de atuar

Na década de 90 o cenário teatral da região começou a ganhar novos espaços. O Teatro Alfa, que funcionava no prédio do ex-Elite Clube (hoje abriga um supermercado) mudou-se para Fundação Acesita (atual Fundação Aperam Acesita). Em setembro de 1998 é inaugurado o teatro do Centro Cultural Usiminas, no Shopping do Vale do Aço, com capacidade para mais de 700 pessoas. Até então, existiam outros espaços, como o Teatro Alfa, no Bromélias, em Timóteo; e também o Teatro Zélia Olguin, no Cariru, em Ipatinga. Mas o primeiro funcionava em um clube de lazer e o segundo como palco de dança. Durante quase 10 anos as montagens maiores eram apresentadas no teatro do Instituto Católico de Minas Gerais, atual Unileste.

Perna de Palco

Em 1996, dois anos antes da abertura do teatro do Centro Cultural Usiminas, surge em Ipatinga o Grupo Perna de Palco. Segundo sua diretora Luzia di Resende a trupe nasceu do “desejo de realizar um trabalho de pesquisa da cultura brasileira e da necessidade de abrir novas perspectivas para o desenvolvimento de um movimento cultural no interior de Minas Gerais”. Em quase 20 anos de atividades, o Perna de Palco já realizou 25 montagens, tendo se apresentado em várias capitais brasileiras. Atualmente o elenco fixo do grupo é composto apenas por Luzia di Resende e Helena Santos, mas o grupo tem feito trabalhos com crianças, adolescentes e adultos, possibilitando montagens com grandes elencos.

Perna de Palco: grupo de Ipatinga com mais de 20 anos de estrada, apresentou em várias capitais do país

Amadores, mas com paixão

Segundo a coordenadora e presidente da Associação Cultural Perna de Palco, sua entrada para o Grupo Quebra-Cabeça, em 1980, quando tinha apenas 14 anos, aconteceu de maneira circunstancial. “Eu era muito tímida, mas minha melhor amiga estava no teatro e comecei a acompanhá-la nos ensaios. Quando vi estava no palco. Mas, no dia da estreia não queria entrar em cena de jeito nenhum”.

Luzia di Resende ressalta que as pessoas envolvidas na época com o teatro se dedicavam à arte apenas pelo prazer de subir ao palco. “Apenas alguns atores da Casa de Cultura recebiam alguma ajuda financeira. Os outros não tinham apoio para realizar suas produções. Foram esses precursores que ajudaram a solidificar o movimento cultural de Ipatinga”.

Sobre sua experiência no grupo Divulgação, ela é taxativa: “O processo contínuo, diário, com três montagens anuais e temporadas de dois meses, me profissionalizou, amadureceu meu trabalho como atriz, me deixou responsável e disciplinada para a criação da cena. É uma herança fundamental na minha formação. Agradeço ao Zé Luiz Ribeiro e a Malu pelo que representam na minha trajetória”.

Farroupilha: processo coletivo de criação

Em 1995, um ano antes do início do Perna de Palco, tinha sido criado em Ipatinga o Grupo Farroupilha, que tem no currículo mais de 20 espetáculos, intervenções e performances por cidades mineiras, fluminenses e paulistas. O grupo desenvolve vários projetos, incluindo intervenções teatrais e circenses, cursos e oficinas de teatro e de circo. Em 2007, 2009 e 2014 foi contemplado com o Cena Minas, Prêmio Estado de Minas Gerais de Artes Cênicas. O espetáculo O Arquivo Vivo selecionado pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, circulou por sete cidades brasileiras. Também em 2013 o Farroupilha levou o espetáculo Palhaços e uma oficina de circo para oito cidades mineiras. O grupo já lançou um CD com a trilha sonora da peça Estórias de Bichos e a revista Clown Para Todos.

Desde 2007, o grupo ocupa o Teatro Circu-Lar Farroupilha, local onde cria, ensaia, apresenta espetáculos, realiza intercâmbios, ministra cursos e oficinas para a comunidade, beneficiando pessoas de todo o Vale do Aço. As montagens do grupo tentam mostrar as inquietações do mundo contemporâneo numa linguagem múltipla de teatro, dança e circo em palcos e locais alternativos. Na equipe do Farroupilha estão os atores Claudiane Dias, Didi Peres, Sinésio Bina e Torosca Silvestre, que também ocupam funções administrativas e contam com a colaboração de Edilaine Peres, Fernando Pires e Luciano Soares.

Farroupilha: inúmeras apresentações pelo interior mineiro

“Geeente do céu!!!”

Também em 1996, ano que foi criado o Perna de Palco, nascia em Coronel Fabriciano um dos mais inovadores e criativos grupos teatrais da região. O Gente do Céu tinha uma proposta irreverente, ousada e debochada. Seus integrantes não faziam um teatro quadradinho, queriam sair do palco tradicional, dos teatros fechados, e escolheram montar os espetáculos em espaços alternativos. Os primeiros ensaios do grupo, criado durante uma viagem (de trem) para Governador Valadares, foram realizados na piscina desativada da casa de um de seus fundadores, Cláudio Franklin, o Claudinho. O nome veio do espanto das pessoas ao assistirem as primeiras performances do grupo em locais públicos: “Geeente do céu!!!”.

Os primeiros a fazerem parte do Gente do Céu foram Jairo Guimarães, Pablo Cardoso, Marcelo Guimarães, Claudinho, Fausto Silva, filho de Rosalva Silva, que também fazia parte do grupo, além de Wellisa Saliba, Natália Martins, Marília Marta, Gisele Rocha, Gabriela Soares e Lucinete Gomes. Como convidado trouxeram Cícero Silva, que hoje está na Cia. Titetê de Teatro, de Belo Horizonte. O sucesso inicial do grupo foi o musical Pátria Língua, uma colagem de músicas e poemas de autores nacionais, que foi apresentado em bares alternativos e no VI Festival de Teatro de Ipatinga. Rosalva Silva foi escolhida melhor atriz e Pablo Cardoso melhor ator do evento.

Em 1997 o Gente do Céu montou seu primeiro espetáculo de palco. Preguiçosos no Mapa Mundi do Brasil, foi feito para comemorar os 75 anos da Semana de Arte Moderna e teve roteiro de Edson Santos, texto e direção de Cícero Silva, cenografia de Pablo Cardoso e iluminação de Ricardo Maia. Ganhou o prêmio de melhor trilha sonora do Festiminas. Também em 97, o Gente do Céu participa de outra experiência inédita. A convite de Luzia di Resende, o grupo se junta ao Perna de Palco para montagem da peça infantil Nhac! Uma Lição de Queijo, de Ed Anderson Mascarenhas, com direção da própria Luzia.

Nos dois anos seguintes entram para o grupo Lígia Schimidt, Andreza Martins, Cristiano Valentim, Cristiano Lage (hoje DJ em Barcelona), Flávia Thusteli e Gil Vicente. Em 2001 o Gente do Céu apresenta o arrojado projeto de Pablo Cardoso, Oh! Minas Gerais. Coordenado por Marcelo Brandt, o espetáculo unia música, dança, circo, artes plásticas e teatro. Em meados dos anos 2000 o Gente do Céu acaba. “Fomos um divisor de água no teatro regional. Antes do Gente do Céu os grupos dependiam dos teatros particulares e brigavam por esses espaços. Então fomos para a rua”, explica Jairo Guimarães, primeiro presidente do grupo. Atualmente, além de fazer parte do grupo Ponto da Poesia, ele forma a dupla Polipan e Ludovic, que é interpretado por Luís Paulo Prati. Juntos, eles trabalham em campanhas de prevenção contra as drogas e álcool em escolas da região.

Gente do Céu: irreverência e deboche

Primeira peça encenada em Ipatinga apresenta controvérsias

Existem dúvidas quanto ao nome do principal responsável pela montagem de Josefa na Justiça. E ainda: o menino Darcy di Mônico fazia parte do elenco ou estava na plateia?

Depois da breve e pioneira experiência do Cordélia Ferreira, a cena teatral no nascente Vale do Aço ressurgiria em Ipatinga em meados dos anos 1950. O pioneiro grupo foi criado pela professora Maria Antonieta da Silveira, a popular Maria do Gandu. Os ensaios eram em sua própria residência, que também funcionava como escola. A primeira peça montada aconteceu em 1956 e se chamava Josefa na Justiça. Fizeram parte do elenco Júlia Maria Silveira (filha de Maria Antonieta, no papel de Josefa), José Edélcio Drumond Alves (no papel de um gago), Lourdes Pascoal (no papel da empregada de Josefa), João Cipriano, Silvio Pascoal e José Orozimbo-que também é reconhecido como o principal responsável pela montagem. Outra controvérsia é quanto à presença de Darci di Mônaco na histórica peça. Segundo algumas fontes, ele trabalhou na encenação fazendo o papel de um menino. Outras citam que o futuro grande nome do teatro da cidade, na época com oito anos de idade, apenas estava na plateia. Posteriormente, o pioneiro grupo amador de teatro montou suas peças em um palco armado na atual Rua São João Del Rei.

(O que também é curioso, é que a professora Maria Antonieta também era de Ferros, onde seu pai fora autor de peças e diretor de teatro. Ao que tudo indica a cidade limítrofe com Coronel Fabriciano tinha uma animada vida cultural no início do século XX, vide a história de Antônio Silveira).

No início dos anos 1960 surgiu em Ipatinga o Conjunto Teatral Esperança Intendente Câmara. As primeiras peças apresentadas foram Os Laços de Lúcifer e Amor Vencido, encenadas no bairro Vila Ipanema. Parte das rendas foi doada ao grupo escolar do bairro. Segundo a coletânea de José Augusto Moraes, “Ipatinga, Cidade Jardim”, um dos mais completos estudos da história da cidade, em uma das cenas de Amor Vencido, o assassino do personagem principal bateu a faca com tanta força no chão que a arma se quebrou e feriu sua mão. Então, numa cena de puro realismo, ele mostrou a mão ensanguentada para a atônita plateia.

Uma década simbólica

Os anos 1960 foram muito importantes para a história do teatro em Ipatinga. A trajetória do que pode ser considerado um de seus mais importantes personagens começa aí. Nascido em Jaguaraçu e falecido em maio de 2012, aos 64 anos de idade, Darci Mônico Rodrigues, o Darci di Mônaco, é o principal desbravador do teatro na cidade, onde criou no final dos anos 1960 um grupo teatral que ensaiava nos fundos da casa do então prefeito Jamill Selim de Sales. No início da década seguinte Darci foi para São Paulo estudar teatro e quando voltou montou a Companhia CleydeYáconis, em homenagem à atriz que foi uma de suas professoras. Envolvido com o teatro durante toda sua vida, o grande Darci di Mônico tem papel importante na descoberta e preparação de muitos artistas do Vale do Aço. É criador da ideia original do espetáculo de maior sucesso de público do interior mineiro, as já lendárias Santinhas do Pau Oco. Um de seus alunos mais conhecidos é o ator e diretor José Lopes, que posteriormente também ajudou a formar novos talentos na Escola de Iniciação Teatral, que funcionou no espaço 7 de Outubro entre 1994 e 2004.

A década de 60 é mesmo simbólica para o teatro ipatinguense. Em 1966, com apenas 11 anos de idade, o futuro ator, diretor, apresentador, humorista e escritor Ademar Pinto Coelho criou um trio de palhaços chamado Lacraia e seus Componentes. Ele era o Lacraia; seu futuro parceiro no consagrado Show Riso, Francismar Vasconcelos, na época com oito anos de idade, era o Pepino; e Nilo Alves, já falecido, irmão do empresário Amantino Alves, era o palhaço Chupeta. Os três personagens eram inspirados no palhaço Pirulito, criação de Bolívar Pinto Coelho, irmão de Ademar, mas que depois de várias apresentações em praça pública, nunca mais se envolveu com a arte. A ponto de nunca ter ido assistir um espetáculo produzido pelo irmão.

Francismar Vasconcelos e Ademar Pinto Coelho consagraram o Show Riso

Montagens de sucesso

No início da década de 70 a cena teatral ipatinguense ganha novo fôlego com a parceria entre o cenógrafo, diretor, ator e bailarino Souza Lobo com Darcy di Monaco. Souza Lobo constrói seu primeiro cenário para a peça Obsessão Macabra. Depois os dois repetiriam a sociedade na peça A Sabedoria de Salomão, apresentada no Clube Ipaminas, no Cidade Nobre. Darcy também escreve Revolta dos Anjos, peça que aborda um tema ousado para a época, o homossexualismo. Em meados dos anos 70 o teatro de Ipatinga ganha mais dinamismo com a criação do Centro de Difusão Cultural do Colégio São Francisco Xavier, do qual tomam parte os professores João Damasceno Ribeiro, Jarbas Martins Rocha, Matozinho Luzia de Souza, Jonil Monteiro, Suzana Gouveia e Eliane Santos, que em 1977 funda o Grupo Teatral Quebra- Cabeça, envolvendo no início apenas alunos do Colégio São Francisco Xavier (CSFX), mas que depois se expande para fora da escola. Maria Helena de Oliveira é também citada numa entrevista de Darcy di Mônico como uma das expoentes do teatro da cidade.

Além de Eliane Santos, os primeiros integrantes do Quebra-Cabeça foram Valdir Ferreira (engenheiro da Usiminas, responsável pela tesouraria), José Dutra (ator) e João Damasceno (diretor administrativo e ator). A seguir vieram Solange Liége (ex-aluna e atual diretora do CSFX), Sandra Coelho Sampaio e Walter Varanda (ator). As primeiras montagens do grupo foram A Verdadeira História da Gata Borralheira, de Maria Clara Machado; O Homem e a Máquina, de João Damasceno; A Cigarra e a Formiga, de Lyad de Almeida; e Muralhas de Sangue, de Eliane Santos. Francismar Vasconcelos entrou para o grupo em 1978, ano da montagem de Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, da qual foi assistente de direção. Em 1979, Ademar Coelho e José Lopes participaram de uma oficina dirigida por Eliane Santos, que resultou no espetáculo A Última Esperança. A montagem, em 1980, teve autoria de Eliane Santos e coreografia de Zélia Olguin, com apresentação (em parte), no programa Mineiros Frente a Frente, na extinta TV Itacolomi. O grupo ficou 16 semanas em primeiro lugar.

Em outra oficina, realizada em 1981, participaram Antônio Guarnieri, que foi responsável pela sonoplastia de Tribobó City, de Maria Clara Machado e Luzia Di Resende. “A partir daí fizemos várias montagens adultas e infantis, utilizando várias formas de encenação, pois éramos um grupo que estudava e experimentava várias linguagens cênicas”, relembra Eliane Santos, que hoje é produtora cultural. Em 1982 o Quebra-Cabeça ganhou o Troféu Ziembinski de Interpretação no Festival de Prosa e Versos de Pouso Alegre (Fesprove), com o espetáculo Libertas Quae Sera Tamen, texto de João Damasceno, direção de Eliane Santos (que também participou como atriz), mais os atores Ademar Pinto Coelho e José Lopes. Em 1989 o espetáculo De Cabral a Ribamar – Como o Brasil Deu no Que Deu, de Eliane Santos, foi o melhor texto do IV Festival de Teatro de Ipatinga (FESTI), que conquistou ainda o Festival de Inverno da UFMG/Festiminas, realizado no Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

A montagem foi escolhida para representar Minas Gerais no Festival de Teatro do Estado do Rio de Janeiro, realizado em Campos dos Goitacazes, onde foi considerado o melhor espetáculo. Na peça A História do Juiz, que permaneceu em cartaz por três anos consecutivos, Ademar Pinto Coelho desempenhou 16 papéis, o que deve ter contribuído para que mais tarde criasse o bem-sucedido Show Riso, no qual contracena com outro Quebra-Cabeça, Francismar Vasconcelos.  Em 1990 o Quebra-Cabeça apresentou sua última montagem, A Lição, de Ionesco, que teve direção de Eliane Santos e coreografias de Fátima Nogueira. Eliane Santos dirigiu o grupo desde a sua fundação, acumulando quase sempre as responsabilidades de direção administrativa, produção e divulgação dos espetáculos. Patrocinava ainda hospedagem em sua casa, passagens de ônibus e alimentação. Também fizeram parte do grupo Marleide Feitosa, Roberto Silva, Aleyse Fernandes, Sônia Moraes, Nildo Dantas, Flávio Correia, Carlos Fidelis, Nancy Nogueira, Fernanda La Noce, Waldiane Ávila, André Luiz e Judith Silva. (Ainda na década de 80, Eliane Santos filiou-se à Federação de Teatro de Minas Gerais e incentivou a adesão dos grupos teatrais da região. A iniciativa proporcionou o aperfeiçoamento técnico e maior conscientização das pessoas envolvidas com o movimento teatral. Foram realizadas oficinas, mostras de espetáculos e debates).

Darci Di Mônaco: em Para Que Não Me Ames Depois – Foto: Rodrigo Zeferino/Grão Fotografia

Na boca de cena, a Comédia Dell’Art

O agitado movimento teatral de Ipatinga nos efervescentes anos 80

A década de 80 também reservou bons momentos para o teatro ipatinguense. A parceria entre Eliane Santos e Zélia Olguin rende, além da premiada A Última Esperança, com oito bailarinos da Academia Olguin, o musical infantojuvenil Tribobó City (1982/1983), de Maria Clara Machado. O espetáculo dirigido por Eliane Santos teve coreografia de Zélia Olguin e assistência de direção de Francismar Vasconcelos. Vale ressaltar que parte da renda de A Última Esperança (1980) foi doada por Eliane para aquisição do novo sistema de iluminação do palco da Academia Olguin.

Em novembro de 1983 Antônio Guarnieri, Adão de Faria, Marilda Lyra e Francismar Vasconcelos (recém saído do Quebra-Cabeça) fundam o Grupo Teatral Boca de Cena, do qual também participou o cenógrafo e figurinista Jamil Boali. Heroicamente ainda em atividade, o Boca de Cena ficou conhecido por suas pesquisas sobre a Comédia Dell’Art usando recursos de vídeo, luz e som, na tentativa de buscar um novo direcionamento artístico. Em mais de 30 anos de existência, a companhia já montou mais de 20 espetáculos. Os mais recentes foram Dom Quixote, O Médico à Força, O Arranca Dentes e Medéia.

Antônio Guarnieri: engenheiro do teatro

Natural de Bicas, Zona da Mata mineira, o ator e dramaturgo Antônio Guarnieri, falecido em 2002, chegou à Ipatinga nos anos 70 para trabalhar como engenheiro na Usiminas, onde se aposentou um ano antes de morrer. Foi também responsável pela criação da Companhia de Teatro Corpo de Prova, em 1986, pela qual recebeu diversos prêmios como autor e ator. Um de seus trabalhos mais elogiados é a readaptação do antigo texto da peça Santinhas do Pau Oco, de Darci di Mônaco. Ele também colaborou na sonoplastia do aclamado musical Tribobó City.

O primeiro espetáculo encenado no Teatro Zélia Olguin, a peça de Juca Chaves, Meno Male, com cenário de José Dias (UNI Rio), iluminação de Ricardo Maia e direção de Adão de Faria, contou no elenco com Eliane Santos, Ailton Avelino, José Dutra, as iniciantes Lílian Araújo e Gyuliana Duarte e Antônio Guarnieri, que hoje dá nome à antiga Escola de Teatro Sete de Outubro, em reconhecimento a toda história e contribuição do artista para o desenvolvimento do teatro ipatinguense.

Como resultado do agitado movimento cultural de Ipatinga, no início dos anos 80 o ator, diretor e professor de teatro José Lopes Sobrinho torna-se um dos principais responsáveis pela criação da Associação Pró-Cultura de Ipatinga (Aproc), em 1983, e da Associação Teatral de Ipatinga (Asti), no ano seguinte. Mas uma de suas maiores contribuições para o teatro local é a fundação, em 1995, da Escola de Iniciação Teatral, que existiu até 2005 no espaço cultural 7 de Outubro e foi responsável pela diplomação de seis mil alunos. No total, mais de dez mil alunos passaram pelo local, o que significa que quase todos os integrantes dos grupos teatrais de Ipatinga são ex-alunos da escola, que também recebeu a valiosa contribuição do professor Clayton Kerle, especializado nas noções do teatro de rua. Elias Ferreira, aluno e depois assistente de José Lopes, continuou seus estudos e fez faculdade de arte cênica.

Meno Male no Teatro Zélia Olguin

O sucesso das freirinhas

A Associação Companhia de Teatro Corpo de Prova é atualmente dirigida por Othon Valgas, um dos mais produtivos e criativos ator e diretor do Vale do Aço, que começou sua carreira quase ao mesmo tempo com Didi Peres, Jamil Boali (cenógrafo e figurinista) e o diretor teatral Gilberto Lainha, que recentemente inaugurou o Espaço MUT, no Centro de Ipatinga, e que agora dirige o espetáculo As Trapalhadas de Risadinha e Gargalhada, encenado pelos atores José Rodrigues e Renan Augusto ( pai e filho). Usando a comédia como base de seus espetáculos e o teatro como uma ferramenta educacional e de popularização da arte, o grupo é responsável por diversos eventos visando a formação de artistas. Um deles é a Conferência de Teatro sobre Shakespeare, que recebe vários nomes importantes do cenário artístico brasileiro.

Dentre os principais trabalhos realizados pelo Corpo de Prova, também conhecido por suas parcerias com outros grupos locais, destacam-se O Auto da Compadecida, No Meio do Caminho, Hora Mágica, O Mercador de Veneza, Sebastiana Vai à Luta, Mercador de Sonhos (de Antonio Guarnieri), Milkshakespeare, Os Saltimbancos e As Duas Filhas de Francisca. Mas a montagem de maior sucesso da Companhia de Teatro Corpo de Prova é a comédia Santinhas do Pau Oco, dirigida por Othon Valgas e que já foi assistida por quase 1 milhão de espectadores. Além de ter recebido diversas premiações.

Santinhas do Pau Oco: projeção nacional e mais de um milhão de espectadores

ENTREVISTA

Concedida à revista Caminhos Gerais em outubro de 2018.

Penélope Portugal

Penélope Portugal é natural de Ipatinga (MG). Cursou Comunicação Social no Centro Universitário de Belo Horizonte/UNI-BH, e Letras, na Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG. Tem Pós-Gradução em Arte Educação, pela Universidade Estadual de Minas Gerais/UEMG e MBA em Gestão de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas. Trabalha no Instituto Cultural Usiminas desde 2004, tendo assumido, em 2016, a Direção Executiva da Instituição e a Coordenação Corporativa de Desenvolvimento Social da Usiminas.

 

  • Observa-se que a agenda do Instituto Cultural Usiminas tem contemplado uma maior diversidade cultural. Quais os critérios de avaliação para que um projeto seja patrocinado pela empresa?

O Instituto Cultural Usiminas completa este ano 25 anos de atuação. Nascemos como um braço social da Usiminas para desenvolvimento de uma política de patrocínios para projetos culturais, uma vez que, naquela mesma época, surgia a lei de incentivo à cultura no Brasil. Ao longo de todos estes anos, os mecanismos fiscais brasileiros foram se desenvolvendo e, por consequência, o Instituto Cultural Usiminas passa a responder por toda a demanda de patrocínios, sejam elas culturais, sociais e/ou esportivas, que chegam para a Usiminas, nas diversas localidadesonde suas empresas estão localizadas. Além da gestão das demandas de patrocínios, o Instituto Cultural Usiminas faz a coordenação de dois importantes complexos culturais para a região do Vale do Aço, ambos localizados em Ipatinga: o Centro Cultural Usiminas e o Teatro Zélia Olguin.

A política de patrocínios da Usiminas, conduzida pelo Instituto Cultural Usiminas, é responsável por assegurar que os investimentos das empresas Usiminas contribuam para o desenvolvimento de toda a cadeia produtiva da cultura, esporte e ações sociais. A aprovação das parcerias privilegia o investimento em atividades de formação, inclusão e desenvolvimento social. Acreditamos que o investimento social privado tem um papel fundamental para a articulação de ideias e a proposição de caminhos que apontem para o desenvolvimento sustentável da sociedade.

  • O Usicultura apoia outras iniciativas na região além dos projetos aprovados pela Lei de Incentivo?

O Instituto Cultural Usiminas está presente em diversas iniciativas nas regiões onde a Usiminas tem operação. Além de promover inclusão, acesso à cultura, ao esporte e desenvolvimento social, ao gerir projetos e promover ações para a comunidade o Instituto Cultural Usiminas ativa uma movimentação na economia em seus locais de atuação. Geração de emprego, movimentação na rede hoteleira e gastronômica, contratação de prestadores de serviços, movimento no comércio e valorização de produtos locais são alguns dos reflexos econômicos positivos dos investimentos em cultura e esporte.

O Instituto Cultural Usiminas também se faz presente em importantes entidades que promovem discussões para o desenvolvimento do turismo e da cultura numa visão integrada e de diversificação da economia. Em Ipatinga, o Instituto Cultural Usiminas representa a Usiminas no Conselho Municipal de Turismo e integra o Projeto Turismo no Vale, que propõem ações, eventos e debates para o desenvolvimento e a valorização do turismo no Vale do Aço.

Na Baixada Santista, o Instituto participa ativamente do CCC – Conselho Consultivo Comunitário do Polo Industrial de Cubatão, que tem o objetivo de manter um canal de comunicação interativo entre as empresas e a comunidade de Cubatão nos temas ligados à Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Responsabilidade Social.

Já em Belo Horizonte, o Instituto integra o Com.Cultura, grupo formado pelas principais empresas patrocinadoras do Estado de Minas Gerais com o objetivo de promover o intercâmbio de informações práticas voltadas ao desenvolvimento cultural diante do setores públicos e do mercado cultural.

Além da cultura, esporte e projetos sociais, hoje o Instituto Cultural Usiminas atua também na área do desenvolvimento humano, promovendo atividades educativas, ambientais e de voluntariado, desenvolvendo um papel fundamental de relacionamento e atuação junto às comunidades. Percebe-se, portanto, que o Instituto Cultural Usiminas evoluiu em suas ações e se consolidou em outras áreas, que não só a da cultura.

  • Há interface em ações culturais entre o poder público e o Usicultura?

Os poderes públicos são parceiros fundamentais na execução das políticas de investimentos sociais da Usiminas. Por meio das legislações vigentes, federais e estaduais, o Instituto Cultural Usiminas já investiu quase de R$ 330 milhões em 2.348 projetos de cultura, esporte e social (FIA – Fundo da Infância e Adolescência; Fundo do Idoso; PRONAS – Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência e PRONON – Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica), em 44 cidades de Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Espírito Santo.

  • Quais os segmentos culturais mais atuantes no Vale do Aço?

O Vale do Aço pode se orgulhar por ser uma região riquíssima em manifestações culturais. A Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, inclusive, considera a nossa região como um polo cultural importante para o Estado. Aqui temos a felicidade de contar com grupos de artes cênicas (dança, teatro, circo), música (bandas, orquestras, corais), artes visuais (artistas plásticos, fotógrafos), artesanato, etc, que são referência em qualidade nas apresentações/produções e gestão de seus espaços culturais e de criação.

  • Qual o montante em recursos destinado a patrocínio de projetos pela Usiminas e quais as áreas contempladas geograficamente?

A resposta está lincada com a pergunta 3.

  • Qual a importância do patrocínio e seu desdobramento?

Patrocínios geram, efetivamente, benefícios e desdobramentos mensuráveis e não mensuráveis para uma sociedade. No caso dos patrocínios culturais, por exemplo, podemos citar alguns pontos relevantes: movimentaçãodas economias locais (geração de emprego e renda); promoção da interlocução entre a arte, a educação, o meio ambiente, em todas as faixas etárias; democratização do acesso da população à arte; discussões contemporâneas relevantes; elevaçãodo nível social de uma cidade/comunidade, proporcionando experiências únicas e diversas.

Segundo estudos recentes do SEBRAE, cada R$ 1,00 investidos em cultura geram R$ 3,00 em movimentação na economia (comércio, serviços, etc). Desta forma, estamos falando de um mercado em franco potencial de expansão e para o qual, muitas vezes, ainda não nos organizamos para nele competir.

Mas, enfim, muito além de dados expressivos, o Instituto Cultural Usiminas orgulha-se de, por meio dos patrocínios e projetos realizados, levar às diversas localidades onde a Usiminas atua o cuidado com as comunidades e colaboradores da empresa: são ações educativas que incentivam o envolvimento de alunos e professores com a arte, a cultura e o esporte; espetáculos de qualidade e acessíveis; projetos culturais que viabilizam a circulação de ações por diversas cidades do país; projetos esportivos que oferecem, além de formação em diversas modalidades, a oportunidade do desenvolvimento social; ações de educação ambiental e de relacionamento com as comunidades; movimentação do turismo e economia com a realização de atividades diversas.

  • Quais os esforços que o Usicultura tem feito para manter a boa oferta de atividades culturais em tempos de crise?

Os últimos anos têm sido de muitos desafios e oportunidades. A crise econômica enfrentada pelo nosso país ainda tem reflexos consideráveis na economia brasileira e, como não poderia deixar de ser, impactou, também, os setores da economia criativa. Importante ressaltar, porém, que mesmo diante dos desafios, a Usiminas manteve a sua atuação social como um pilar sustentador e de grande importância perante às comunidades. Mantivemos os nossos investimentos nas cidades onde atuamos, permanecemos com a oferta de atividades nos nossos espaços culturais (Centro Cultural Usiminas e Teatro Zélia Olguin), em Ipatinga, e estreitamos ainda mais o diálogo com os parceiros para, juntos, pensarmos em alternativas e caminhos para execução das ações e projetos.

  • A Usiminas divulgou recentemente o restauro de três patrimônios históricos em Ipatinga. Qual a importância da preservação destes e quais as ações continuadas previstas?

A Usiminas vai restaurar em Ipatinga três bens tombados pelo município: a “Estação Pedra Mole”, a “Fazendinha” e o prédio da “Academia Olguin”. No total, a empresa deve investir cerca de R$ 1,5 milhão em reformas e adaptações dos imóveis. A “Estação Pedra Mole” e a “Fazendinha” já estão com seus projetos-executivos em andamento e serão restauradas no âmbito de um acordo com o Ministério Público, com aprovação prévia do Patrimônio Histórico e Artístico de Ipatinga.

O projeto de restauração da “Estação Pedra Mole” tem entre seus principais objetivos adequar o acesso e ambiente para abertura ao público. Entre as obras previstas está a limpeza da estrada de acesso às ruínas da estação, instalação de portões, restauração de estruturas, reboco e pintura, retirada de pichações, restauração da plataforma de embarque e ainda o cercamento do entorno da estação. Após a reforma, os visitantes poderão reviver o início do século XX, conhecendo um pouco mais sobre a história local, do transporte ferroviário no Brasil e da colonização no interior de Minas Gerais, fomentando a educação ambiental e o resgate do patrimônio histórico-cultural.

No caso do restauro da “Fazendinha” o objetivo é recuperar o imóvel de forma a manter suas características originais da época de sua construção, anterior ao período de industrialização de Ipatinga. No local serão feitas, entre outras intervenções, o restauro das paredes e pisos interno e externo do imóvel, recuperação do madeiramento dos pilares e baldrames, substituição do reservatório de água e tubulações e implantação de novas instalações elétricas.

Para o projeto da “Academia”, aprovado na Lei Estadual de Incentivo à Cultura, o principal objetivo é permitir que o espaço volte a ter condições técnicas de ser utilizado como alternativa de apresentações cênicas/musicais na cidade. O local, que abriga salas de ensaio, teatro com 205 lugares e palco com cerca de 80 metros quadrados, receberá novo telhado, novas instalações elétricas, pintura e correção de revestimentos, além de reparos hidráulicos, sinalizações e saídas de emergência, entre outras reformas.

O restauro desses três bens é de enorme importância não só para Ipatinga como para todo o Estado. Resgatar e preservar a memória desses locais é proporcionar às pessoas, dessas e das futuras gerações, o conhecimento de sua própria identidade. E a Usiminas, como uma empresa que tem sua história alicerçada na cidade, tem muito orgulho de participar dessas iniciativas.

  • O Usicultura está investindo também na educação ambiental. Qual o resultado prático dessa iniciativa?

Atualmente, o Instituto é responsável por promover uma visita para estudantes e escolas do Vale do Aço e redondezas ao Viveiro de Mudas da Usiminas (localizado em Ipatinga), espaço criado em 1980 para ser um local de preservação e educação ambiental, acessível à comunidade. Trata-se do projeto Aventura no Viveiro, que integra a programação do Projeto Xerimbabo Usiminas 2018. Com a técnica dacontação de histórias, são abordados temas como meio ambiente, preservação e sustentabilidade e a relação da Usiminas com a cidade na qual vivemos. Os participantes também fazem o plantio de mudas que são levadas para as escolas.

Por meio desta iniciativa, o Instituto promove uma vivência em educação ambiental rica de informações para estudantes e professores, que serão agentes multiplicadores. Neste contato com a natureza, a comunidade pode se apropriar deste espaço especial e aprender a importância de preservar a natureza no seu dia a dia.

Quais as expectativas para o próximo semestre? 

Continuaremos trabalhando com muito afinco e empenho as ações de responsabilidade social da Usiminas, em todas as localidades onde estamos presentes, com o objetivo de contribuir, efetivamente, com projetos e programas que façam a diferença nas realidades das comunidades, numa relação de parceria e coparticipação.

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