No espaço de pouco mais de duas décadas, entre o final dos anos 1960 e meados dos anos 1990, Coronel Fabriciano teve, certamente, uma das mais movimentadas vida noturna do interior mineiro

Por: José Célio de Sousa

Com posição privilegiada, localizada entre duas grandes siderúrgicas, Coronel Fabriciano já foi o centro comercial, cultural e de badalação do Vale do Aço. Nos anos 70 e 80 do século passado a cidade competia em número de bares, restaurantes e boates apenas com Juiz de Fora e Governador Valadares. Desde, no entanto, o começo dos anos 1920, com a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas, que o pequeno povoado chamado Calado vislumbrou sua vocação para os bares, com a finalidade de atender centenas de trabalhadores vindos de várias partes do país, especialmente do Nordeste. Depois da inauguração da estação ferroviária, em 1924, o comércio local atraiu mais visitantes e consumidores, e novos bares foram abertos.

Quase vinte anos depois, em 1942, início das obras de instalação da Companhia Aços Especiais Itabira (Acesita), em Timóteo, uma nova leva de trabalhadores chega à região, ávidos para se divertirem. Com seus inúmeros bares, o povoado de Coronel Fabriciano, ainda pertencente a Antônio Dias, é o único lugar com condições de receber tantos visitantes. Ipatinga, a exemplo de Timóteo, ainda é um inóspito lugarejo. A zona boêmia Pinga Fogo, expande-se, então, rapidamente, e tem importância relevante nos primórdios da noite fabricianense. O baixo meretrício começava onde é hoje a sede do Senac, na rua Albert Scharlet, e terminava cerca de 200 metros depois, onde ficavam os bares mais desqualificados, os ‘copos sujos’. Mas bares como o Boa Noite, Satélite e Continental possuíam belas e atraentes mulheres, muitas vindas até do Rio de Janeiro. Algumas foram conquistadas por apaixonados clientes e persuadidas a se casarem no altar de véu e grinalda.

Com o anúncio da instalação da Usiminas, em Ipatinga, a partir de meados dos anos 1950, o comércio fabricianense cresce surpreendentemente e bares mais modernos e bem equipados foram montados para atrair uma clientela cada vez mais exigente, com a vinda de técnicos, engenheiros e de profissionais estrangeiros, especialmente japoneses, para trabalharem na obra. Ganham notoriedade bares como o do Aleixo, do Nicanor e do Papai, que nos finais de semana, recebiam um público extra, mais familiar, vindo das sessões noturnas do Cine Glória, que funcionava na rua Moacir Birro, onde fica hoje uma imobiliária. Só eram vendidos os refrigerantes Grapette e Crush e as cervejas Brahma e Antarctica vinham de trem de Belo Horizonte. Mas a agitada e glamorosa vida noturna de Coronel Fabriciano, que teve seu auge nos anos 1970/1980, começava a tomar forma. A Usiminas foi responsável também pela abertura de casas noturnas no Caladinho, como o famoso bordel da Fia e o conhecido Mineirão, construído em forma circular no alto do morro.

Graduadas do curso de Artesanato recebe de Lauro Pereira o diploma, no primeiro clube de Coronel Fabriciano, o “Sete de Setembro”, na década de 1960

Senhoras da sociedade fabricianense finalizando o curso de artesanato oferecido pela Casa dos Plásticos

Horas dançantes no Itapoã

Em 1966, um modesto clube criado pelo então padre José Nazareno Ataíde para a comunidade do distrito de Melo Viana, o Itapoã, se tornaria até o final de 1970, um dos locais mais frequentados não apenas pela juventude de Coronel Fabriciano, mas, também, de Ipatinga e Timóteo. Os bailes as sextas, sábados e domingos com música ao vivo eram comentados em toda a região e superlotavam o recinto onde se espremiam e dançavam quase 200 rapazes e moças. Originalmente o Itapoã era a sede dos Vicentinos e depois de reformado para servir de bar e clube de dança ganhou também duas alas de seis quiosques na área de entrada, à direita da avenida Geraldo Inácio, ao lado do antigo Cine Alvorada.

No Itapoã se apresentavam os conjuntos mais renomados da cidade, como The Best, The Lions, The Dragons e Os Tenebrosos; bem como o Pierre 5, de Ipatinga; e o requisitado Almeida Boys, de Manhuaçu, uma das bandas mais famosas do interior mineiro nos anos 1970. Os concursos de dança eram outra atração no clube do Melo Viana e as matinês e bailes de carnaval ainda são relembrados com muita saudade pelos antigos frequentadores. “Durante as férias as horas dançantes no Itapoã ficavam ainda mais animadas com o pessoal que vinha para a casa dos pais. Tudo era muito organizado”, recorda o radialista Moacir Arantes, filho de antigos pioneiros do distrito fabricianense e que na adolescência, muitas vezes no meio de colegas mais velhos, entrava de penetra no Itapoã, onde aprendeu a dançar vários ritmos.

Inauguração do Clube Itapoâ, no Melo Viana, em 1961

 

Jovens se divertem num dos memoráveis bailes no Itapoã

Conjuntos fabricianenses famosos

O Itapoã foi palco de vários programas dirigido ao público jovem, como o Abdala Badala Show, Juventude Brasa e Tháia Show, que também atraiam grande público. “Fizemos apresentações em muito desses eventos. O clube ficava superlotado e era muito legal tocar para aquelas pessoas. Realmente os anos 60 foram uma grande agitação”, relembrou Jonas Camargo, o Jonito, ex-vocalista dos Best, o destacado conjunto fabricianense formado pelos irmãos Carlinhos (solo, já falecido) e Nonô (base), mais João Luiz (contrabaixo, já falecido), Moacir (bateria) e Wallace (vocal).

The Best, uma das pioneiras bandas pop rock dos anos 1960

The Lions

Colaboração: Walmir Lage

O conjunto musical nasceu de um grupo denominado JUF (Juventude unida fabricianense) em 1964. Esse grupo era formado por Alaim, que era guitarra base, Fernando Sales no contra baixo, Mazola (in memorian) na bateria, José Gonçalves (TanTan) (in memorian) na guitarra solo, e Vivaldo (in memorian) na guitarra base, substituindo Alaim, que permutava guitarra e crooner. José Geraldo Viegas, filho dr Sr. José Cirilo, era o empresário e tinha como sede, um salão de sua propriedade na MG4.

A primeira apresentação aconteceu no programa Ricardo Show. O conjunto musical se apresentava em bailes especiais nas cidades da região, além de contratos fixos com o Elite clube, clube sete de setembro, Rosalpes, Itapuã, VIP, Ponteio, padaria do Cariru, clube Olaria, etc. A agenda da banda chegou a ser fechada durante o ano todo, animando as noites fabricianenses com muito sucesso que marcou época.

Com o surgimento das discotecas, os conjuntos de músicas ao vivo, foram se desfazendo. Em dezembro de 1967 com a saída do Mazola (in memorian), começou a desfazer o grupo inicial, entrando o José Orlando na bateria. Em meados de de 1969, sai o Tantã e Fernando, e Alaim foi para Vitoria, tocar contrabaixo no Escorpiões, no lugar de Otacílio.

Nossos instrumentos foram vendidos, sobrando somente a guitarra do Vivaldo que havia sido roubada na sede do conjunto. Fernando, Mazola e Zé Geraldo, estiveram na delegacia registrando queixa, mas a guitarra nunca foi encontrada. No ano seguinte, 1970, formou-se um grupo novo, com integrantes de conjuntos musicais já desfeitos, com o mesmo nome The Lions. Esse novo grupo não durou muito tempo, pois Vivaldo foi para vitória em 1970 e no final em 1971, retornou a Cel Fabriciano reencontrar os amigos do Lions, Mazola, Fernando, Ze Geraldo, se desculpou por alguma coisa; foi a última vez que o vimos.

A primeira banda de pop rock da região, The Lions, além dos memoráveis bailes, apresentou-se na inauguração do Clube Casa de Campo, na década de 1960. Segunda formação: Vivaldo, Arizinho, Zé Orlando e Luiz Carlos

 

Os Tenebrosos eram liderados pelo cantor e compositor de sucesso Zé Roberto (base), Silvinho (baixo), Cassiano (teclado), Nei (bateria) e Ary Carneiro, o Aryzinho (solo), que também integrou o The Best e o The Lions, cuja formação que mais durou era composta por Zé Orlando (bateria), Heli Machado (contrabaixo), Vivaldo (base), mais Aryzinho e o vocalista Luiz Carlos, hoje tenente-brigadeiro aposentado.

De Ipatinga, o conjunto Pierre 5, liderado por Custódio, transcendeu as fronteiras da região, apresentando-se inclusive fora do estado

Kasebre, boate com luz negra e efeitos estroboscópicos

A partir do início da década de 70 a vida noturna de Coronel Fabriciano passará a atender um novo e numeroso público. Além do crescimento do contingente de técnicos estrangeiros trabalhando em serviços especializados na Acesita e Usiminas, os estudantes vindos de várias cidades mineiras e de outros estados atraídos pelos inúmeros cursos oferecidos pela parceria entre a Universidade do Trabalho e a Universidade Católica de Minas Gerais, o futuro campus do Unileste, no bairro Caladinho, farão parte de um crescente tipo de clientela. E clubes sem grandes atrações, como o Itapoã, na verdade um grande salão de dança, vai perdendo o interesse do público jovem até fechar as portas no desfecho de 1970. Em algumas oportunidades nos dois anos subsequentes, o clube foi reaberto, mas as tentativas duraram pouco tempo.

Em 1969, um ano antes do declínio do Itapoã, a inauguração da primeira boate da cidade, o Kazebre, seria responsável pelo impulso mais inovador do que viria a ser a agitada noite fabricianense. Localizada no bairro Santa Helena, na rua Armando Fajardo, naquele tempo ainda completamente desabitada e sem calçamento, o Kazebre (Ka, de Katsuo Furuta, um nissei já falecido, que também era o discotecário; e Zebre, de Zenóbio Ayres Gomes, então um jovem empresário de Governador Valadares tentando a sorte em Coronel Fabriciano), foi instalada com todos os aparatos modernos de uma boate da época, com luz negra, efeitos estroboscópicos e discotecário.

Quando o Kazebre foi inaugurado, a vida noturna em Coronel Fabriciano resumia-se aos bailes do Country Clube Caladinho (já extinto), Clube 7 de Setembro (em processo de declínio) e Clube Casa de Campo. Além do restaurante e bar Cabana, ainda sem a fama que passaria a ter e que não tinha música ao vivo frequentemente, existiam inúmeros pequenos bares, alguns famosos, como o Bar do Zé Firmo, ponto de encontro da boêmia local. Mas faltava na cidade uma boate.

Foi o que vislubrou Zenóbio Ayres Gomes ao frequentar diariamente o restaurante Vip’s, que viria a ser pouco tempo depois a boate Kazebre. “Eu almoçava sempre lá e como conhecia várias casas noturnas de Belo Horizonte planejei a instalação de um estabelecimento do gênero dirigido a um público mais selecionado. Convidei o Furuta, que trabalhava numa imobiliária, adquirimos o Vip’s e montamos a boate, que passou a ter uma clientela estritamente familiar. Era um prazer, para nós proprietários, ver os pais esperando os filhos saírem da boate para levá-los para casa. Naquela época era raríssimo um jovem ter o seu próprio carro”, relembra Zenóbio.

No Vip Restaurante, local que se transformou na Boate Kasebre, a primeira boate da cidade, Zenóbio, sócio de Furuta

 

Furuta no Kasebre

Churrascaria Cabana: um bar lendário e garçons folclóricos

A boate Kazebre funcionou até 1971, quando acabou a sociedade entre Zenóbio e Furuta, que depois virou advogado. Mas o jovem empresário valadarense estava prestes a se tornar uma espécie de Ricardo Amaral do interior mineiro e virar o ‘rei da noite fabricianense’. Agora tendo como sócio Aurélio Sena, o Lelo, filho de um dos pioneiros fabricianenses, Nelson Sena, e até então funcionário da antiga loja 3 Poderes, o primeiro magazin de Coronel Fabriciano, Zenóbio adquiri o restaurante Cabana, pertencente ao comerciante Sebastião Prata. O Cabana é o mais lendário dos bares da cidade. Localizado atrás do edifício Silvana, um prédio de dois andares no início da rua José Cornélio, no Centro da cidade, possuía um espaço muito amplo e arejado. Podia ser considerado como um ponto de encontro e de final de noite de pessoas de toda a região.

Além de um cardápio excelente, seus garçons, Tomé, Divino, Pelé e o folclórico Sempre, eram uma atração à parte no restaurante sempre superlotado nos finais de semana. Era o local onde todos os jovens, moças e rapazes, se reuniam para conversar sobre músicas, filmes, política e os novos comportamentos, como amor livre, movimento hippie e pacifismo. Era onde também a moçada gostava de exibir suas calças Lee e Lewis e suas longas cabeleiras ao som dos mais recentes discos da época. “Tínhamos nossas turmas e o relacionamento era muito saudável. Chegávamos tarde em casa sem nenhum problema. Foi um tempo inesquecível”, recorda Natália Pacheco, que foi uma frequentadora assídua do Cabana.

O Cabana, como todos os grandes bares daqueles anos, era decorado por inúmeros posters de estrelas internacionais, como Brigite Bardot, Rachel Welsh, Úrsula Andrews e James Dean. Quando adquiriu o estabelecimento, Zenóbio continuou com o mesmo quadro de garçons, um grupo que já fizera fama antes no restaurante, além do cozinheiro João Cruz e da cozinheira dona Genoveva, responsáveis pela fama de pratos como medalhão e arroz à grega, frango ao molho pardo, filé à parmegiana e risotos, os mais pedidos na casa. Também fazia enorme sucesso nas madrugadas, principalmente entre os fregueses mais duros, o mexidão do Cabana. A caipirinha e o farto e suculento rodízio de churrasco eram a perdição dos profissionais estrangeiros que trabalhavam temporariamente na Acesita e na Usiminas. Os japoneses, sempre em maior número, eram os que mais aproveitavam as delícias locais. Não raro, tinham que receber atendimento médico em razão de problemas estomacais.

A badalada Churrascaria Cabana foi referência regional durante toda uma década

 

Almoço dos funcionários da Cia. de Diversão Piracicaba, na Churrascaria Cabana

 

Em almoço na Churrascaria Cabana, ao centro, o garoto Liu e Geraldo Guilherme Dias

 

Encontro político na Churrascaria Cabana, com a presença do então deputado Itamar Franco, ao centro de óculos

 

A Churrascaria Cabana primava pela decoração, utilizando em seu espaço os famosos posteres da época, dentre eles, The Endless Summer

 

Jovens fabricianenses no Buteco, bar na calçada do antigo Hotel Silvânia, na esquina da Rua José Cornélio com Pedro Nolasco – ao centro, José Hiran

 

No Castelinho, esquina da Rua José Cornélio com Moacir Birro, os jovens se divertiam com boliche

 

Magda, musa das noites fabricianenses, vitma de acidente aéreo

Imperador Restaurante: canja de galinha nas madrugadas

Quanto a Sebastião Prata, o fundador do saudoso restaurante, depois de fechar a venda do Cabana, começou a por em prática seu plano de montar uma churrascaria. A Califórnia, nome do estabelecimento, chamava a atenção de quem chegava à cidade vindo de Ipatinga pela antiga MG 4, hoje avenida Tancredo Neves, no começo da descida para a ponte sobre o ribeirão Caladão. O novo empreendimento do pioneiro Sebastião Prata, que funcionou até os anos 90, foi construído na forma de um imenso caramanchão e seus shows de música ao vivo lotavam a casa, cujo cardápio conservara o mesmo nível de qualidade do Cabana. Nas altas madrugadas fabricianenses, no entanto, um dos pratos mais famosos era a canja de galinha do Imperador Restaurante, que ficava no começo da avenida Pedro Nolasco. A clientela do local era uma total democracia boêmia. Rapazes e moças vindos das badalações ou de bailes no Clube Casa de Campo se misturavam aos boêmios e às prostitutas do Pinga.

Modernidade tecnológica e ótimos discotecários

O ano de 1972 é emblemático para a noite fabricianense. Sob o comando da dupla Lelo e Zenóbio surge a boate Skritório, construída estrategicamente bem no meio do grande movimento proporcionado pelo Cabana. A segunda boate criada por Zenóbio em Coronel Fabriciano, construída no térreo do edifício Silvana, é muito superior ao Kazebre no tamanho, na modernização e no valor do investimento. “A iluminação e o som foram feitos pela Prodel, uma empresa de Belo Horizonte altamente requisitada. Os arquitetos que elaboraram o projeto do ambiente também eram da capital. A boate Skritório foi montada nos moldes das melhores casas noturnas do Rio de Janeiro na época, como as boates Le Bateau e Hippomotamus. Nos finais de semana recebíamos pedidos de reserva de mesa de Manhuaçu, Governador Valadares, Inhapim, Caratinga e até de Carangola”, revelou Zenóbio a Caminhos Gerais.

Durante cerca de cinco anos a fama da boate Skritório percorreu todo o interior mineiro e suas noites nos finais de semana atraíam até jovens da capital que tinham parentes ou familiares na região. Além da sua modernidade tecnológica de luzes, o bom serviço de mesa, a boate era reconhecida também por seus ótimos discotecários, como “B.O”, irmão da empresária Martha Azevedo, Marquim Pimpim (hoje conhecido como DJ Pimpim), Aprígio, Rogério Zaidan, Didi Campos e Toninho Caiçara. Eram tocados no Skritório os últimos lançamentos de music dance norte-americana e da música popular brasileira. Na noite do domingo 29 de abril de 1973, apesar do grande número de pessoas que se aglomeravam na entrada, a boate ficou fechada, de luto. À tarde, em um acidente aéreo, quatro frequentadores fiéis da casa tinham morrido em Ipatinga. Eram eles o advogado Sérgio Madruga Romanelli e sua namorada Magda Leila Queiroga Cabral, uma das jovens mais belas da sociedade fabricianense, o empresário Márcio Guerra, que pilotava o avião e Edilard Anísio Drumond Alves, o Lalau, filho do pioneiro Raimundo Anício, falecido em julho de 2013. Segundo testemunhas, o avião Cesnna não conseguiu completar o looping em razão do peso excessivo de quatro pessoas e caiu numa estrada próxima ao aeroporto da Usiminas, em Santana do Paraíso. Outra versão dá conta de que o Cesnna pegou fogo ainda no ar e ao tentar aterrissar ocorreu a tragédia.

A boate Skritório foi a casa noturna mais frequentada da região até o início de 1977. Depois de ficar fechada durante pouco tempo para uma ampla reforma, é reaberta no dia 7 de julho de 1977 com o nome de Saint Tropez. A exemplo da sua antecessora, a nova boate continuava tendo uma clientela formada principalmente por colunáveis da época, estudantes mais abastados, playboys noturnos, empresários, técnicos e engenheiros da Acesita e Usiminas. O ex-presidente da empresa, Rinaldo Campos Soares, já falecido, frequentou muitas vezes tanto o Skritório quanto a boate Saint Tropez, no tempo que era diretor da siderúrgica de Ipatinga.

 

Rua Maria Matos – Nas décadas de 1970 e 1980 a noite fabricianense conquista fama até na capital

Ambiente civilizado e bolsas nas mesas

Virou lenda um episódio ocorrido com o popular garçom Sempre e um grupo de engenheiros da Usiminas. Contam que após consumirem garrafas de uísque e vinho importados, a turma pediu a conta, que resultou numa soma altíssima, muito superior ao total estimado. Os engenheiros estranharam e após conferirem mais detalhadamente a nota caíram na gargalhada. Sempre, também famoso por sua paixão ao Clube Atlético Mineiro, tinha somado até a data da conta, além de anotar uma estranha bebida de nome Sicolá. Indagado sobre o curioso item, respondeu: “Se colá vocês pagam uai!” No final da hilária representação, ao invés de ser repreendido, foi recompensado com uma polpuda gorjeta. Outra figura folclórica da noite fabricianense foi um fotógrafo espanhol, conhecido apenas por Juan, que vivia de fotografar casais ou grupos de amigos nas boates e bares.

O ambiente na Saint Tropez, apesar de muito movimentado, era muito civilizado. Sua clientela continuou selecionada. “Nunca fomos intimados ou processados por clientes. As mulheres deixavam suas bolsas nas mesas para dançarem ou irem ao banheiro. Era um outro tempo, não existia violência, e muitos casais que se conheceram na boate acabaram casando, como a Bethe (já falecida) e o médico Mauro Abreu”, revela  Zenóbio, que chegou a ser eleito vereador. A nova casa tinha a mesma qualidade técnica e musical da boate Skritório.

Também no térreo do edifício Silvana e também para aproveitar o movimento do Cabana e da boate Skritório, foi aberto o Buteco, um barzinho elegante com mesas externas e com uma carta de batidas de frutas altamente consumidas pelos frequentadores, a maioria jovens de toda a região. Instalado na esquina da avenida Pedro Nolasco com a rua José Cornélio, o Buteco foi palco de um trágico acidente. Num sábado à tarde, um automóvel desgovernado entrou na área onde ficavam as mesas do lado de fora do barzinho e matou o contador Lacyr Guido Lima, que se recuperava de uma perna quebrada. O Buteco funcionou até início dos anos 1990.

A dupla Lelo e Zenóbio foi responsável ainda pela construção do Sobradão, prédio que abriga atualmente o gabinete do prefeito e algumas repartições municipais, em frente à praça Louis Ensch. Inaugurado em 1976, o Sobradão fez história. No térreo funcionava o restaurante e no andar superior a casa de shows, onde frequentemente se apresentava o grupo de samba liderado pelo cantor e compositor Roberto José. A casa foi palco de inúmero shows com artistas famosos e depois de marcar época, acabou encerrando as atividades no início dos anos 2000. No Sobradão foram realizados ainda desfiles de moda da butique Kadô, da empresária Lourdes Mansur Pagano, apresentados pelas principais modelos nacionais da época, como Sílvia Pfeifer e Rose di Primo.

Sobradão: cardápio refinado e desfiles de moda com modelos renomados

Silvia Phaifer foi a modelo que mais desfilou no Sobradão, a convite da boutique Kadô

Nos embalos das discotecas

Ainda nos anos 1970, algumas casas noturnas foram abertas em Melo Viana, mas todas tiveram vida curta, como o Clube Leal, que absorveu o público local do Itapoã e funcionou até 1976 próximo onde fica a loja Sirigaita; e o Maringá, no início da avenida Geraldo Inácio, aberto entre 1976 e 1977. No mesmo período e na mesma imediação existiu o Palhoça. Mas a casa noturna de maior sucesso no distrito fabricianense foi o bar e boate do Quinzinho, a primeira do gênero em Melo Viana. Durante dois anos, 1976/1978, o estabelecimento foi o local mais badalado tanto da juventude fabricianense quanto de rapazes e moças de Ipatinga e Timóteo. Apesar do pouco tempo em que ficou aberta, a boate do Quinzinho conseguiu marcar uma época para grande parte da geração que a frequentou.

Outro point de estrondoso sucesso entre os jovens, principalmente adolescentes, foi a discoteca Xodó, criada pelo comerciante Antônio Adolfo Lage em 1978, no andar superior do bar e restaurante do mesmo nome montados por ele no número 1.529 da avenida Magalhães Pinto três anos antes. “No início pensei em abrir uma boate voltada para um público mais adulto. Mas fui aconselhado por Rogério Peres, dono da Dominó, boate valadarense, de que o grande negócio era embarcar numa nova onda musical que tinha explodido como uma bomba nos Estados Unidos. Era a moda das discotecas que vinha surgindo após o grande sucesso do filme Embalos de Sábado à Noite, estrelado por John Travolta. Realmente, enquanto durou a febre das discotecas, a Xodó vivia cheia”, conta seu criador, que acabou ganhando o apelido de Toninho Xodó.

A discoteca do Melo Viana, com capacidade para cerca de 150 pessoas, tinha discotecário vindo do Rio de Janeiro e nos moldes das mais conceituadas casas do gênero da época, possuía equipamentos super modernos, como o famoso globo de espelhos, luzes coloridas e piso de acrílico. Nos finais de semana eram vendidos até mil ingressos. “O ambiente na Xodó era muito tranqüilo. A maioria dos frequentadores tinha entre 14 e 16 anos. Não era um público adulto. Então não era vendida nenhuma bebida alcoólica, mas apenas refrigerantes”, revela o antigo proprietário, cujo filho, o hoje consultor de empresas Walmir Lage, trabalhava como porteiro no estabelecimento. Com a decadência do ritmo das discotecas, no início de 1980, a Xodó acabou sendo fechada um ano depois. Mas o bar e o restaurante continuaram funcionando por mais quatro anos. Ainda na onda das discotecas, Coronel Fabriciano teve uma enorme e luxuosa boate, a Midnight Express, localizada próximo ao trevo da cidade. Seus sócios, um brasileiro, Sílvio Miranda, e um norte-americano, investiram alto na montagem da discoteca, que teve curta duração, mas certamente foi uma das mais modernas do interior mineiro.

Após a boate Escritório, a Saint Tropez marcou a época do surgimento da discoteca, estilo dançante que dominou as casas noturnas até os atuais eletrônicos

 

O antigo Cine Marrocos cedeu lugar à famosa boate Undergrownd, considerada uma das mais equipadas tecnologicamente do inteior mineiro

Fritz, Chicken In, Barril e um novo público

Com a instalação em meados dos anos 1970 da Universidade Católica de Minas Gerais (UCMG) no antigo campus da Universidade do Trabalho, o número de estudantes vindos de outras regiões cresce rapidamente e várias repúblicas são abertas no bairro Caladinho e nas áreas centrais da cidade para atender a demanda cada vez maior de novas vagas. Dentro deste ambiente surge um dos bares mais frequentados por estudantes, o Recanto do Fritz, localizado no número 724 da avenida Magalhães Pinto e inaugurado em julho de 1977. ‘Fritz’ era o apelido de Josino Afonso dos Santos, então funcionário do Clube Casa de Campo, que em sociedade com o irmão Clemente, ex-ferroviário da Vale, criou um dos bares mais badalados de Coronel Fabriciano no final dos anos 70 e início dos 80. Com mesinhas externas espalhadas na parte da frente, o Fritz era um barzinho charmoso e atraente, construído num espaço de 200 metros quadrados que ficava completamente lotado nas noites de sexta, sábado e domingo, quando eram vendidas mais de 50 caixas de cerveja. Mas, aos poucos, com o surgimento de um novo ponto de badalação na cidade, o não menos famoso Chiken In, onde passaram se reunir os jovens de toda a região no início dos anos 80, o outrora disputado Fritz começou a ser menos frequentado e acabou encerrando as atividades em outubro de 1993. Por duas vezes, em meados dos anos 80 e entre 90/91 o bar foi arrendado, mas funcionou por pouco tempo.

O Chiken In era um bar que ficava no início da rua Quintino Alves com a avenida Magalhães Pinto. Embora não possuísse um espaço muito amplo atraia uma multidão de frequentadores a partir das quintas-feiras. O público era predominantemente formado por jovens, tanto de Coronel Fabriciano quanto de Ipatinga e Timóteo. Em razão do enorme sucesso do Chicken In, outros bares começaram a funcionar em sua imediação. Durante os anos 1980 o local foi o point de maior ferveção da cidade. Na mesma época, o Barril, próximo ao campo do Social, no início da avenida Magalhães Pinto, também ficou famosa por seus chopes.

Bar do Fritz: a noite fabricianense, do Centro expande para a Baixada do Melo Viana

Viegas: um restaurante com mais de 15 pratos internacionais

Ainda na década de 80 surgiu um restaurante que se tornaria uma famosa casa de shows, o Viegas, situado na avenida Magalhães Pinto, na região conhecida como Baixada do Melo Viana. Fundado por José Geraldo Viegas Fonseca, 18 meses depois, foi vendido ao Natal. O viegas ficou famoso pela comida de qualidade e a música ao vivo aos sábados a noite. Aos domingos, o almoço igualmente lotado, tinha piano ao vivo. Além de seus mais de 15 pratos internacionais, o Viegas, aberto em 1986, foi palco de apresentações memoráveis, como dos cantores Nelson Gonçalves, Moacyr Franco, Jamelão e Erasmo Carlos, da cantora Roberta Miranda, da dupla Os Vips, e do conjunto Renato e Seus Blues Caps. Em 1990 a casa viveu uma de suas mais agitadas noites. Embora na Sede Campestre do Acesita se apresentasse o Pendulum e no Industrial Esporte Clube o Brasil 70, duas das mais famosas bandas do interior mineiro, o Viegas ganhou seu maior público com o baile que marcava a volta do não menos famoso conjunto Pierre 5. “O Viegas (que fechou no ano 2000) deixou saudades. Ainda hoje recebo elogios pelo cardápio e os shows do local”, revela Nilton Guimarães de Lima, o Natal, um ex-contabilista que foi o proprietário do restaurante e morou nos Estados Unidos entre 2001 e 2006.

A gastronomia sofisticada teve espaço nas noites fabricianenses

 

Cosmo’s: um frenético ponto de badalação nos anos 90

No início dos anos 1990, o ex-funcionário da Acesita, Cosmes Roberto Claves, começou a se tornar um dos mais renomados empresários da noite fabricianense. Seu interesse pela vida noturna começou quando o bar da moda, o Chicken In, já dava mostra de decadência. Então pressentiu que era o momento certo para se criar um novo ponto de badalação, principalmente para a juventude. Juntamente com o amigo Guilherme de Castro comprou um caminhão velho que foi transformado num bar improvisado, o Tropicana. Inspirado em um tradicional bar existente em Juiz de Fora, o Mexicano, famoso por oferecer um pastel com o mesmo nome. O Tropicana ficava em frente à loja de calçados Biboca, na rua Maria Matos, e com o crescente movimento e o interesse cada vez maior da clientela, pouco tempo depois transformou-se no Knippe, que logo também mudou o nome para Kiskina e, finalmente, para Cosmos.

Ao se desligar da Acesita em meados dos anos 1980, Cosme Claves adquiriu o Restaurante JP, localizado também na rua Maria Matos e pertencente ao empresário Juca Pires, falecido em 2012. O negócio não deu certo e o espaço foi transformado na boate Flash, que também fez muito sucesso, mas funcionou apenas durante dois anos. Nesse meio tempo, Cosme transferiu o Cosmos para o início da rua Maria Matos, onde funciona hoje uma igreja evangélica. A idéia deu certo e o novo Cosmos caiu no gosto dos clientes. Para manter o bar sempre em evidencia, Cosme viajava sempre para os grandes centros, como o Rio de Janeiro, para estar por dentro das novidades da noite. “O curioso é que o movimento do Cosmos não devia muito aos das capitais. Sem nenhum exagero, era uma espécie de microcosmo do Baixo Leblon. Os frequentadores do bar pareciam muito com os jovens cariocas”, avalia Cosmes.

No final dos anos 1990, o sucesso do Cosmo’s sinalizava o declínio das noites douradas de Coronel Fabriciano

O charme da noite fabricianense

No final dos anos 80, a dupla dos reis da noite Lelo e Zenóbio diversificou seus empreendimentos com a inauguração do Castelinho, uma moderna e espaçosa casa de chope localizada nas proximidades do edifício Silvana, onde funciona hoje um sacolão, na esquina das ruas José Cornélio e Moacir Birro. Com um ambiente agradável, o estabelecimento depois mudou de nome e virou Vira-Vira, abrigando uma pista de boliche. Quanto à Saint Tropez, depois de passar a chamar-se Ponto.Com e Cartier, foi demolida em 2011. “A violência e suas consequências na vida noturna foram responsáveis pelo declínio da afamada noite fabricianense”, avalia Zenóbio Ayres Gomes, que juntamente com o sócio Lelo, foi proprietário ainda do charmoso restaurante Barracão e do popular bar Casanova, ambos já extintos.

Para Clemente Afonso dos Santos, ex-sócio do Fritz, e Nilton Guimarães de Lima, ex-proprietário do Viegas, o vertiginoso crescimento de Ipatinga e Timóteo nos últimos 30 anos, que naturalmente fez surgir novos bares, restaurantes e boates nas duas cidades, diversificou o movimento de entretenimento na região. “A instalação de quebra-molas no bairro Caladinho contribuiu negativamente para o desaquecimento da vida noturna em Coronel Fabriciano. Cerca de 50 por cento dos nossos clientes eram de Ipatinga; 30 por cento de Timóteo, e apenas 20 por cento de Coronel Fabriciano”, assegura Nilton Guimarães. A exemplo de outros entrevistados, ele também culpou a falta de apoio do poder público local para o desaparecimento da saudosa vida noturna da cidade, cuja última grande boate foi a Underground, inaugurada no final dos anos 90 no prédio do antigo Cine Marrocos.

A noite fabricianense hoje é uma saudosa lembrança na memória de muitos casais que se conheceram, ouvindo os maiores sucessos que marcaram a música do século XX. No centro de um polo siderúrgico, Coronel Fabriciano recebia milhares de jovens que ordeiramente se divertiam nos dezenas de bares que se distribuíam entre o Centro ao distrito de Melo Viana.

Entre os anos de 1960 e 1990, funcionaram os seguintes bares, restaurantes e casas noturnas: Clube 7 de Setembro, Itapoã, Kasebre, Cabana, Skritório, Saint Tropez, Maringá, Leal, Buteco, Quinzinho, Big Stop, Xodó, Viegas, Bar do Zé Firmo, Xoça, Barracão, Sobradão, Cartier, Midnight Express, Barril, Barrilzinho, JB Restaurante, Tropicana, Knippe, Kiskina, Cosmo’s, Flash, Jambalya, Fritz, Chickein, Underground, Castelinho, Vira-Vira e Armazém do Chopp. Além dos bordéis Pinga Fogo, Fia e Mineirão.

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3 Comments

  • José Oscar C. Andrade disse:

    Sensacional as reportagens sobre bares e boates de Fabriciano. Gratas recordações para mim que cheguei a Ipatinga em janeiro de 1971. Descrito tal como foi e como vivi.

  • Magda disse:

    Podiam falar mais sobre a noite Saintropez. Foram os melhores anos de minha vida … sou de Nova Era e passava férias na casa da minha avo em Fabriciano. 1982 a 1985. Tem fotos da boate ? Tinha um homem mais velho e careca que tirava fotos. Saudades

  • Fátima vasconcellos disse:

    Morei em coronel fabriciano esta epoca.
    Era muito amiga da Denise mansur filha da D.Lurdes da Kâdor boutique.
    Era muito bom.Como frequentei esta boate.Não existia medo que temos hoje.
    Depois que mudei para Belo Horizonte finais de semans ia para Cel Fabriano.
    Saudades.

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