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Revista Caminhos Gerais

Da década de 1970 a 1990, Timóteo foi referência cultural reconhecida nacionalmente pelas relevantes e arrojadas iniciativas culturais

Na sede da antiga Fazenda Angelina, na década de 1950, empregados da Acesita, vindos de regiões distantes e nativos, formavam uma nova sociedade e uma nova identidade social e urbana – Foto: Arquivo particular

Não é difícil andar pelas ruas de Timóteo e encontrar um timotense entusiasta do passado e enebriado de orgulho por tantas primazias e outrora manifestações culturais que permeavam pelas diferentes classes sociais. Da década de 1970 até 1990, Timóteo foi referência cultural reconhecida nacionalmente pelas relevantes e arrojadas iniciativas que permeavam desde as manifestações artísticas contra a ditadura, como dos festivais da canção, do cinema, dos desliles carnavalesco, dos shows no Elite Clube e dos congressos de literatura.

Timóteo, cidade primaz, chamada de São Sebastião do Alegre em tempos atrozes, abrigou o primeiro sesmeiro do Médio Rio Doce, Francisco de Paula e Silva Santa Maria, por volta de 1832, e no século seguinte, abrigou a primeira usina de aço inoxidável da América Latina. E foi também na primeira metade deste século XX, que Timóteo redesenhou sua identidade sociocultural, migrando do período agropastoril para o industrial.

A partir de então, o apito da grande usina, determinava a hora de acordar, de se alimentar e de descansar. E foi dessa profusão de pessoas, vindas de várias partes do país, agrupadas em vilas operárias, conectadas com os nativos dos arredores, que fundiram-se no mesmo ideal e produziram um dos mais promissores períodos históricos e culturais da cidade.

A mistura de ideias de técnicos e peões forasteiros, juntamente com egressos do tempo da Sesmaria do Alegre, transformou-se num dinamismo cultural que fez de Timóteo a cidade mais cultural do leste mineiro nos idos dos anos 1960 a 1990.

Os movimentos culturais tiveram várias frentes, desde a circulação de livros como O Capital e Primavera de Praga, comprados na livraria Pasárgada, à imprensa de esquerda e alternativa, como os jornais Le Mond, Opinião, Pasquim, entre outros, a criação do Movimento Alfa como também os carnavais, os festivais da canção, os festivais de cinema, os congressos de literatura e a capoeira do Reginaldo.

Shows nacionais no Elite Clube, como este de Roberto Carlos na década de 1960, conectava Timóteo com o eixo cultural Rio/São Paulo – Foto: Arquivo particular

Há quem afirma que, o impulso cultural em Timóteo, deve-se também à uma reação à repressão do regime militar, que caracterizava a região como Área de Segurança Nacional, por ser estrategicamente industrial e abrigar grande comunidade proletária.

Até a efervescência cultural iniciada no final dos anos 1960 e início de 1970, a religiosidade ordenava os eventos sociais, especialmente na Praça 29 de abril, na sede do distrito – Foto: Arquivo Particular

Essa profusão de iniciativas, impulsionadas pela criatividade, numa região que despontava em crescimento vertiginoso e progresso sistêmico, era o terreno fértil para explodir o ideário progressista e cultural do timotense. Como ponto de partida, a crescente população embalava-se num animado Carnaval formado por blocos irreverentes e multicoloridos; A vida cultural florescia com o movimento ALFA, fundado por jovens locais; a criação do muralógico, mural onde se colava recortes de jornais alternativos, como o Pasquim e Opinião ou mesmo crônicas da população, instalado em frente à antiga Cobal; os encontros culturais na Livraria Pasárgada e a criação do CECAB, Centro de Estudos da Cultura Afro Brasileira; os shows de artistas nacionais no Elite Clube, a criação do Festival de Música Popular de Acesita, que influenciou anos depois na criação do vibrante festival Uirapuru nos anos 1980; no reconhecido nacionalmente festival de cinema e o Kinocks, com a Semana do Cinema Brasileiro e os congressos de âmbito nacional de trovas e de literaturas realizados pela Apemt. Este era o cenário cultural de Timóteo, um vibrante e coeso rosário de manifestações culturais de alto nível, que dava a cor, o tom e a forma à livre conscientização política e cultural da população.

Carnavais

Na década de 1950, os blocos carnavalescos já percorriam as ruas do distrito – Foto: Arquivo particular

O Carnaval é o que pode-se dizer, a primeira e mais popular manifestação cultural da cidade que já respirava ares industriais. O carnaval em São Sebastião do Alegre, nos idos de 1940, não era muito diferente do restante do país. Nos quatro dias da festa, os foliões saíam em grupos, ou ‘cordões’, como se chamavam na época, cantando as tradicionais marchinhas aprendidas nos poucos rádios existentes no povoado. Todos se enfeitavam com roupas coloridas. As moças pintavam o rosto de ruge, da marca Madeira do Oriente, pintavam os lábios de batom vermelho, da marca Michel, e as unhas de esmalte também da cor vermelha.

Durante muito tempo, entre os anos 1940 e 1960, a foliã Jacyra Gomes, filha de Raimundo Martins Fraga, o Tiéco, e Maria Gomes, foi a rainha do carnaval do antigo povoado. Os reis momos se revezavam entre seu pai ou Flivio Pimenta, e outros. Jacyra saía de casa acompanhada pela comitiva carnavalesca que cantava as marchinhas e jogava confetes e serpentinas. O bloco percorria o Largo da Praça, hoje a Praça 29 de Abril, a Rua Principal, hoje Avenida Acesita, e descia a rua Cine Lybamar, hoje rua Padre Antônio Araújo.

Nos anos 1960, os bailes de carnaval aconteciam nas dependências do Clube Promet, animados por uma banda formada por músicos do lugar. Até serem proibidos no início dos anos 1960, os frascos de lança-perfumes estavam nas mãos da maioria dos foliões.

Os desfiles carnavalescos

A escola de samba Bocas Brancas nos primeiros desfiles nos anos 1980 – Foto: Arquivo particular

O Carnaval foi organizado em 1979 e o primeiro desfile em 1980 na Praça 1º de Maio, com o incentivo da Acesita. O primeiro desfile contou com seis escolas de samba, sendo elas: Unidos Cachoeira do Vale (Cachoeira do Vale), Unidos Primavera (Primavera), Bocas Brancas (Bromélias e Centro), Unidos da quitandinha (Quitandinha), Vai Quem Quer (Timirim e Funcionários) e Ala Leste (São Cristóvão).

Na ordem cronológica, as campeãs foram: 1980 e 1981, Bocas Brancas, 1982, Vai Quem Quer, 1983, bocas Brancas, 1984, sem concurso, 1985, Bocas Brancas, 1986, Vai Quem Quer, 1987, 1988, 1989, 1990, 1991, não teve concurso, 1992, Bocas Brancas (desfilou Canto do Vale de coronel Fabriciano) 1993, não teve até 2000, quando no retorno o Quitandinha foi campeão.

Os desfiles retornaram em 2010, dando o título ao Bocas Brancas.

Carnaval Timótel 2026

Grande público prestigiou o retorno do Carnaval em Timóteo, após 14 anos – Foto: Elvira Nascimento

Em 2026, por iniciativa da prefeitura, do Instituto Moreira Matos, do Grupo MaisVip e da ACE/CDL, 14 anos depois, o Carnaval em Timóteo retorna à Praça 1º de Maio, com apresentação de blocos e da única escola de samba sobrevivente, a Império da Sede.

Movimento Alfa

Criado em 1974, o movimento ALFA, alusão à primeira letra do alfabeto grego, tem importância destacada na vida cultural da cidade.

Graças ao apoio de Padre Abdalla Jorge, surgiu o Grupo Alfa, formado por timotenses de coração ou nascido na cidade, preocupados com as atividades culturais locais, discussões políticas, lazer entre outras questões de cunho social. São eles: Orlando Luis de Souza, Telesmar Afonso, Dema, José Antônio Torres, Paulo Oliveira da Cruz, Bernadete Saraiva, Waldemar Fernandes (Dema), Reginaldo Consolatrix, e vários outros.

Após a realização de um questionário, o Grupo Alfa definiu uma agenda cultural para Timóteo, onde originou a Feira Cultural, que chegou a movimentar a cidade no final da década de 70 e início de 80. Outra manifestação cultural do grupo foi o Muralógico, um mural itinerante, onde era colado recortes de jornais, mensagens entre outras informações voluntárias visando o aculturamento e a boa informação da população.

A Capoeira em Timóteo foi criada pelo CECAB – Centro de Estudos da Cultura Afro Brasileira – Foto: Arquivo particular

Outros grupos de jovens, como o JUBA (Jovens Unidos do Bairro Alvorada), o ALFA também teve o apoio e o amparo do padre Abdalla, que entre outras iniciativas, colaborou na realização do Festival de Música Popular de Acesita, no início dos anos 1970, e que antecedeu o Festival Uirapuru, evento de enorme sucesso nos anos 1980.

O ALFA, que também teve o apoio do Sindicato dos Comerciários de Timóteo/Fabriciano (Secteo), tinha como finalidade principal a conscientização política e cultural da sociedade. Nos bailes promovidos na Associação dos Aposentados, o grupo exibia filmes de cunho político.

Outro trabalho do ALFA que merece destaque é a pesquisa realizada durante três anos sobre a situação das famílias carentes da cidade. Ou ainda o seminário com o professor Othon Fava, da antiga Universidade do Trabalho, cujo tema era ‘Por que ninguém gosta de falar sobre trabalho fora do ambiente do trabalho’.

Uma das ações sociais do Alfa que mais provocou reações agressivas por parte da classe patronal foi o movimento contra o trabalho semi-escravo nas carvoarias que abasteciam a Acesita. A partir de então, o Alfa tornou-se um incômodo para a usina. Devido a região ser considerada Área de Segurança Nacional, os movimentos culturais de Timóteo chamavam a atenção do Serviço Nacional de Investigação (SNI).

Kinoks lançou filmes nacionais em Timóteo

Folheto da III Semana do Cinema Brasileiro, realizado pelo Knocks Clube de Cinema, mostra o grande prestígio do evento

Outra manifestação cultural de grande destaque nacional foi a Semana do Cinema Brasileiro, realizado pela Knocks Clube de Cinema, liderado por Gilberto Araújo. O clube foi responsável pela presença da grande mídia nacional na região, em torno de eventos que contavam com a presença de atores e diretores de cinema famosos. Dentre os filmes lançados nacionalmente em Timóteo, foram Pichote e Gaigim. O evento, patrocinado pela Acesita e a Usiminas, tinha abrangência aos cinemas de Timóteo, Coronel Fabriciano e Ipatinga.

Entre 1976 e 1981, um grupo de cinéfilos de Timóteo agrupou-se para promover a Semana do Cinema Brasileiro. Sob a coordenação de Gilberto Araújo, de Belo Horizonte, foi formado o Cine Clube Kinoks, palavra de origem russa que quer dizer ‘amantes do cinema’. Inicialmente, o grupo era formado apenas por jovens, em sua maioria oriundos de outros movimentos culturais, como o ALFA.

Notícia na imprensa sobre a III Semana do Cinema

Gilberto Araújo, que já tinha experiência em cine clubes da capital mineira, encontrou em Timóteo o fermento cultural adequado e teve o mérito de agrupar em torno dos jovens, várias mulheres da sociedade, como a historiadora Christina Társia, a atriz Manoelita Lustosa, que teve participação destacada na Casa de Cultura de Coronel Fabriciano, Conceição Resende e, principalmente, Célia, esposa de Elpídio, superintendente da Usiminas.

A Semana do Cinema Brasileiro teve participação destacada na vida cultural de Timóteo. O festival era realizado em julho e teve sete edições. Todas de enorme sucesso. Principalmente quando era o lançamento de um novo filme no mercado nacional. Aqui foram lançados, entre outros filmes, Beijo no Asfalto, O Homem Que Virou Suco, e Gaijin, cuja diretora, Tizuka Yamazaki, esteve presente ao evento. Um mês antes da Semana do Cinema Brasileiro, era também realizada a Feira Artística Cultural, promovida pelo grupo ALFA, entre 1977 e 1982.

Uirapuru

A banda nacional, A Cor do Som, na abertura de um dos Festivais da Música Uirapuru – Arquivo particular

A música também marcou os movimentos culturais em Timóteo, como os festivais coordenados pelo Colégio Monsenhor Rafael, onde as apresentações eram no campo do Acesita Esporte Clube. O Festival dos Comerciários, organizado pelo sindicato também marcaram época e o famoso Uirapuru, promovido pelo setor de comunicação da Acesita. O Uirapuru tinha como apresentadora, Elke Maravilha e o ator global, Lauro Corona.

Os apresentadores do Uirapuru, Lauro Corona e Elke Maravilha – Foto: Arquivo particular

Entre 1983 e 1989, sempre nos meses de maio ou junho, o Uirapuru – Festival da Canção da ALFA (Associação de Lazer dos Funcionários da Acesita) centralizava a atenção do público de Timóteo e toda a região. O famoso festival atraía músicos, compositores e cantores não só do interior mineiro como também de outros estados, como São Paulo, Espírito Santo, Mato Grosso, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Paraná,

Lenda indígena

O Festival da Canção da ALFA foi idealizado pelo ex-professor Nazareno Ataíde, na época, assessor de Comunicação Social da Acesita. O nome Uirapuru refere-se a um pássaro amazônico que segundo uma lenda indígena só canta uma vez ao ano, quando toda a floresta silencia para escutá-lo.

Além dos apresentadores de renome, o festival encerrava-se sempre com um grande show musical de artistas do porte de Gonzagão, Zé Ramalho, Belchior, Sá e Guarabyra, A Cor do Som, Jair Rodrigues, Renato Teixeira, Moraes Moreira e Almir Sater. No primeiro dia do festival o júri tinha a árdua tarefa de escolher 20 músicas entre as 40 pré selecionadas das mais de 200 inscritas. A boa premiação em dinheiro atraía os músicos e compositores.

Descaso

Um dos mais premiados compositores do Uirapuru, o timotense José Maria Rosa, se emocionou diante do descaso com a história do importante festival – Foto: Mário de Carvalho Neto

Em 2021, a revista Caminhos Gerais noticiou com exclusividade o que veio a provocar um forte sentimento de tristeza e revolta na população. Vários itens sobre o festival Uirapuru, como fitas de vídeo, cartazes, fotografias e troféus foram encontrados em meio a entulhos, abandonados nas instalações em demolição do antigo Clube Alfa. Este acervo recuperado foi destinado à Secretaria de Cultura de Timóteo, onde se encontra protegido.

Literatura

A escritora Zaíra de Carvalho (1936/2023), fundou a Associação dos Poetas e Escritores do Município de Timóteo – Foto: Mário de Carvalho Neto

Outro movimento que foi responsável também por uma efervescência cultural em Timóteo nas décadas de 1980 e 90, foi a Apemt – Associação dos Poetas e Escritores do Município de Timóteo. Fundada em 1986 pela escritora Zaíra de Carvalho, a entidade publicou 14 títulos de sua autoria, dentre eles livros de poesias, trovas, sobre a história do setor da saúde de Timóteo e livros didáticos. A Apemt lançou também várias coletâneas com diversos escritores da região, escritores estes que não podiam financiar sozinho o seu livro.

Congressos de âmbito nacional

Devido a série de viagens que ela fazia pelo Brasil palestrando sobre a literatura do Vale do Aço, Zaíra teve a oportunidade aproximar de organizadores de importantes eventos literários no país, que a auxiliaram em realizar cinco congressos de âmbito nacional de trovas e de literaturas em Timóteo. Como filiada à Febet – Federação Brasileira de Entidades Trovistas, a qual a escritora era diretora cultural no Rio de Janeiro e diretora cultural do Clube dos Trovadores Capixaba, recebeu o apoio de diversos escritores renomados que aqui estiveram ministrando oficinas a novos escritores. Dentre eles, Osvaldo França Júnior e Manoel Messias de Vasconcelos. Diante da relevância de Timóteo no setor da literatura, o Clesi de Ipatinga estendeu suas atividades à Timóteo, uma iniciativa exemplar de integração cultural.

Atualmente, cidade com menos patrimônios culturais materiais e imateriais tombados e registrados do Vale do Aço, o timotense da nova geração pouco ou nada sabe da grande efervescência cultural que contagiou a cidade no passado. Neste contexto, não é necessário criar algo novo, o passado e suas memórias estão ai, com seus símbolos e suas conquistas, prontos para serem resgatados e voltar a fazer parte do orgulho da cidade.

NIVER CMI 2026

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