31 de outubro, dia em que histórias se cruzam na mesma direção, fabricar o aço e reinventar o aço
Ao passar nos arredores da siderúrgica, ouvindo o som de uma usina em plena operação, é impossível imaginar como milhares de pessoas de todas as idades e gêneros, operam sob longos galpões, equipamentos altamente sofisticados, com tecnologias de ponta, numa corrida contra o tempo, fabricando pesadas bobinas de aço para atender ao crescente mercado nacional e internacional. É ali, onde começou a escrever a história do Vale do Aço que pessoas deixaram e continuan deixando suas marcas.
Diferentemente dos modelos atuais, quando os cálculos para a construção de uma fábrica são elaborados por inteligência artificial, sua montagem, por equipamentos robotizados e sua produção final executados por braços mecânicos e o ser humano exercendo quase que uma função subliminar, na Aperam, o esforço humano, desde o longínquo 31 de outubro de 1944, exerce uma função fundamental. Por detrás da logomarca roxa e alaranjada, há pessoas que se emocionam e vibram com os resultados.
Os pioneiros

Distante de tudo, os carvoeiros produziam o combustível para o alto-forno. A rara fotografia registra o primeiro monte de carvão produzido pela Acesita, na localidade de Licuri – Foto: Arquivo Particular
Este roteiro humano, faz parte da história social da empresa, que a partir da aquisição das terras da Fazenda Angelina, recrutou a mão-de-obra absolutamente leiga, nos rincões da região. Período em que o termo tecnologia não era ainda usual, os braços humanos tornam-se literalmente ferramentas imperiosas nas diversas frentes de serviços pesados, como na derrubada a machado das imponentes árvores existentes, na terraplanagem feita à mão, na construção dos fornos para a fabricação do carvão e no carregamento dos caminhões, na construção da vila operária, na construção das bases da siderúrgica, na montagem da usina, na escaldante fabricação do ferro gusa e nos precários serviços gerais, como também os não empregados, os “marmiteiros”. As pessoas levantaram a usina, operaram a usina e transformaram a usina.

Executados à mão, os serviços de terraplenagem preparavam o terreno para erguer a usina – Foto: Arquivo Fundação Aperam Acesita
Como numa ilha, a comunidade trabalhadora no entorno da usina seguia a rigor, as normas e condutas impostas pela empresa. O apito, ouvido à distância, determinava a hora de trabalhar, de comer, de descansar e de dormir. O único meio de aliviar as tensões fora do domínio da usina. era o famigerado Timirim das Cachaças.
O apego à companhia por estes pioneiros era tanto, que chegou ao ponto de lutarem para substituir o nome do município pelo nome da empresa. Um sentimento que nem sempre era recíproco, mas, o que importava era a identidade operária que pulsava no peito dos milhares de trabalhadores.

A Vila dos Técnicos, uma das primeiras edificações nos arredores da usina – Foto: Arquivo Fundação Aperam Acesita
As primeiras indústrias de ferro
No início, quando a fabricação de ferro no país tornou-se imperativo, Minas Gerais passou a abrigar um dos maiores parques industriais de ferro gusa da história. Só no Vale do Rio Doce, existia cerca de 120 fábricas de ferro. Era aqui que adormecia no subsolo os maiores depósitos naturais de minério de ferro do planeta, e era sobre estes depósitos que um novo ciclo ocuparia o lugar do rico e esgotado ciclo do ouro, o ciclo do minério de ferro.
Mesmo tendo como prioridade a exploração aurífera, já se cogitava na Colônia a necessidade de fabricação de ferro, especialmente na Capitania de Minas Gerais, devido ao alto custo do ferro importado da Europa para a fabricação de ferramentas. Em 1780, o Governador da Capitania de Minas Gerais, D. Rodrigo José de Menezes, defendia veementemente a implantação de uma fábrica de ferro na região. A própria Inconfidência Mineira, movimento de caráter liberal e republicano, incorporava em sua luta pela independência o clamor pela instalação de fábricas de ferro próximas as minas de ouro. A ideia de liberdade, vinculava-se a ideia de desenvolvimento econômico da região, baseado no aproveitamento industrial de seus recursos minerais.

Gravura de Johann Moritz Rugendas, retrata atividade minerária no Ciclo do Ouro
Em 1808, em Carta Régia do Príncipe Regente, D. João, em outubro de 1808 autorizou Manoel Ferreira da Câmara – o Intendente Câmara, que ocupava o cargo de Intendente dos Diamantes, a estabelecer um alto-forno para ferro em Minas Gerais, na localidade do Morro Gaspar Soares, nos arredores do arraial do Morro do Pilar, com objetivo de fornecer ferro em barras para fabricação de ferramentas para a mineração.
A segunda tentativa de produzir ferro, coube ao Barão Wilhelm von Eschwege, engenheiro e naturalista alemão que aqui chegou junto à Corte Portuguesa. Ele ocupava o cargo de Intendente das Minas de Ouro e Curador do Gabinete de Mineralogia do Governo. Eschwege em viagens de exploração científica por Minas Gerais, iniciou em 1811, a construção da Fábrica Patriótica, em Congonhas do Campo.

Em suas viagens, o naturalista passou pelo Vale do Rio Doce, especialmente na região onde ergueria a Cia. Aços Especiais Itabira – Acesita. Segundo a escritora timotense Zaira de Carvalho, que nasceu na Fazenda Angelina, local onde foi instalada a Acesita, Eschwege batizou o ribeirão Timóteo com o nome de seu afilhado Thimoteo. A história do aço na região, pode não ter correlação com este fato histórico, entretanto, os vínculos históricos tem dinâmicas e conexões intrigantes, que propiciam reflexões que vão além do espaço e do tempo.
Durante o século XIX e o início do século XX, as principais jazidas de minério pertenciam a empresas estrangeiras que priorizavam a exportação, entretanto, crescia em Minas Gerais a ideia de implementar no estado um relevante projeto siderúrgico. Neste contexto, duas companhias entram na pauta de investimentos privados com apoio público: a Acesita, e a Cia. Siderúrgica Mannesmann, em 1952. O americano Percival Farquhar e os brasileiros Athos Lemos Rache e Amynthas Jacques de Morais decidem instalar no então distrito de Timóteo – Terras planas, abundância em água e madeira e uma jovem ferrovia para escoamento, era tudo que o empreendimento precisava.

Em 29 de abril de 1949, a Acesita comemora a primeira corrida de gusa do alto-forno nº1 – Foto: Fundação Aperam Acesiat
Nascia então a Acesita, siderúrgica à base de carvão vegetal, que tinha planos ousados de fabricar aços especiais e abastecer o crescente mercado nacional, afetado pela restrição da importação de aço em decorrência da Segunda Guerra Mundial.
Centro de Pesquisa
Desde então, a Acesita vivenciou desafios de toda a ordem até sua maturidade, quando a definição, elaboração e aprimoramento de seus produtos passam a serem sistematizados por processos evolutivos.
Essa história tem como ponto de partida, o antigo Cetec – Centro Tecnológico de Minas Gerais, em Belo Horizonte, laboratório onde a Acesita o utilizava no desenvolvimento e análise de produtos, pesquisas de amostras e capacitação de estagiários. A partir da privatização da Acesita em 1992, o então diretor industrial Antônio Rigoto, determinou que seus profissionais no Cetec, se estabelecessem em Timóteo.

Mardlirio José Martins. o primeiro funcionário do Laboratório de Desenvolvimento Tecnológico, atual Centro de Pesquisa, no início das atividades na usina de Timóteo – Foto: Arquivo Particular
Segundo o aposentado Mardlirio José Martins, que ingressou na empresa em 1985, na falta de espaço definido para instalação de uma estrutura compatível com a atividade, cogitou-se a instalação na atual Fundação Aperam, quando ainda funcionava como casa de hóspedes. Descartada a opção, cogitou-se instalar o complexo de pesquisa na localidade do Oikós, também descartada. A terceira opção, a mais viável, devido a proximidade com a planta industrial, decidiu-se instalar no antigo vestuário e central de ponto, onde permanece até os dias atuais.

Entretanto, para não parar as pesquisas, especialmente do aço elétrico, a Acesita instalou um laboratório temporário em um galpão no interior do setor de aços elétricos, até que estruturasse o novo espaço. Com a vaga aberta, o funcionário, Mardlirio é transferido para o laboratório, atuando na área de revestimento e tratamento térmico de aços elétricos, sendo então o primeiro funcionário local, juntamente com funcionários vindos de Belo Horizonte.

Com seis anexos, o Centro de Pesquisa localiza-se nas proximidades da Laminação a Frio – Foto: Elvira Nascimento
A pesquisa em aços inoxidáveis continuou no Cetec, até a montagem do complexo, que recebeu seu primeiro nome: Laboratório de Desenvolvimento Tecnológico, sob a gerência de Marco Antônio Cunha. Em 1995, o então governador de Minas, Eduardo Azeredo, compareceu na inauguração do laboratório. Neste período montou-se a usina de alcatrão, extinto posteriormente. Com o crescimento das demandas no laboratório, este recebe então seu segundo nome: Laboratório de Pesquisas e Desenvolvimento, sendo construídos novos anexos, como: Ensaios Mecânicos e Desgaste; Laboratório de Métodos Físicos; Laboratório Termomecânico; Linha Piloto e Laboratório de Estampagem. Finalmente, o complexo recebe o nome atual de Centro de Pesquisas.

O Laboratório de Método Físico é um dos anexos do Centro de Pesquisa – Foto: Elvira Nascimento
O Centro de Pesquisas atualmente, com 57 profissionais – entre doutores, mestres, técnicos e pesquisadores, celebra 30 anos de fundação, desenvolvendo novos produtos, na melhoria contínua de processos, na redução de custos e redução de riscos industriais e na criação de soluções que integram inovação, sustentabilidade e competitividade.

Na programação dos 30 anos do Centro de Pesquisa, o gerente executivo Tarcísio Reis de Oliveira, recebeu os profissionais da imprensa que conheceram as estruturas do complexo – Foto: Arquivo CG
Segundo o gerente executivo do Centro de Pesquisa, Tarcísio Reis de Oliveira, “Investir em pesquisa é investir no futuro. Significa estar preparado para os desafios que virão e se manter relevante no longo prazo. Na Aperam, buscamos inovar para estar cada vez mais presentes na vida das pessoas, com aços mais leves, resistentes e sustentáveis”. “No Centro de Pesquisa, onde também contamos com uma réplica da usina, com a maioria dos seus processos e equipamentos em menor proporção, conseguimos testar em pequenas quantidades, variar parâmetros com agilidade e reduzir significativamente os riscos”, ressalta Tarcísio.
Integram à rede de parceiros outros centros de pesquisas como a UFMG, que já dura cerca de 30 anos, a USP, Unicamp, UFRJ, UFOP, UFU, UFSCar, CEFET-MG, Unileste e o IPT – maior centro de pesquisa tecnológica do país.

Resultado de anos de pesquisa, o aço inoxidável Endur 300 é um exemplo de inovação desenvolvida pela própria Aperam. Alta resistência mecânica com durabilidade superior, substituindo o aço carbono em aplicações sujeitas a desgaste e corrosão – Foto: Arquivo CG

Aço de grão não orientado (GNO), essencial para motores de veículos elétricos e híbridos – Foto: Elvira Nascimento
Outro avanço recente foi o desenvolvimento dos aços de grão não orientado (GNO), essenciais para motores de veículos elétricos e híbridos. A Aperam desenvolveu em tempo recorde os aços inoxidáveis duplex para a exploração de petróleo em águas profundas. Outro legado do Centro de Pesquisa foi o desenvolvimento de aços inoxidáveis para sistemas de escapamento. Praticamente todos os escapamentos de automóveis no Brasil utilizam aços inox desenvolvidos em Timóteo.
Celebração

Tarcisio apresentou a equipe dos 57 colaboradores do Centro de Pesquisa – Foto: Elvira Nascimento

Em seguida, Tarcisio fez uma retrospectiva dos 30 anos do complexo de pesquisa – Foto: Elvira Nascimento

O diretor Humberto Marin, Reiner Steins, Chief Innovation and R&D Officer da Aperam, Mychell Laurindo de Souza e Tarcísio – Foto: Elvira Nascimento

Parte da equipe do Centro de Pesquisa com Reiner Steins – Foto: Elvira Nascimento

Foto: Elvira Nascimento

Foto: Elvira Nascimento
E foi com as pessoas que o Centro de Pesquisas celebrou seus 30 anos de fundação, responsáveis pela evolução de um dos mais nobres produtos da indústria nacional. Essa evolução que transcende aos procedimentos e normas técnicas, impulsionada pelo entusiasmo, dedicação e o amor ao trabalho, é parte de uma empresa que vem conquistando méritos, como ser reconhecida como a melhor empresa para se trabalhar, avaliada pelo “Lugares Incríveis para Trabalhar”, promovido pela Fundação Instituto de Administração (FIA) e pelo Uol.






