Considerado um dos mais fortes Carnavais do interior mineiro nos anos 1980, a cidade prepara seu resgate no “Carnaval Timóteo 2026”
Um dos mais importantes capítulos da história social de Timóteo, os Carnavais, que competiam com os melhores do interior mineiro na década de 1980, é ainda hoje reverenciado na memória e no coração dos saudosos timotenses. E foi pensando no resgate desta marcante festa popular que deixou saudades, que o prefeito de Timóteo, Victor Prado e equipe, juntamente com o empresário Bruno Freire, diretor do Grupo Maisvip, anunciaram recentemente o retorno do tradicional Carnaval de Timóteo.
O Carnaval em Timóteo tem seu registro histórico desde os idos dos anos 1940, quando pequenos blocos percorriam as ruas da sede do ainda distrito.

Na década de 1940, os foliões em bloco, percorriam em carros abertos as ruas do distrito de Timóteo
Nos anos 1980, o Carnaval timotense, brilha com a grandiosidade dos desfiles das Escolas de Samba, Unidos da Quitandinha, Vai Quem Quer e Os Bocas Brancas, ao longo da Alameda 31 de Outubro, consolidando-se como uma das festas populares, com maior potencial econômico, turístico e cultural da cidade.
Carnaval Timóteo 2026
De acordo com o diretor do Grupo Maisvip, Bruno Freire, coordenador do Carnaval Timóteo 2026, o evento é uma oportunidade de reviver os inesquecíveis e memoráveis carnavais do passado e a possibilidade de movimentar a economia da cidade. Bruno disse ainda, que nos últimos carnavais, Timóteo vem se esvaziando significativamente, reiterando que, o Carnaval, além de segurar o timotense na sua cidade, poderá também receber um expressivo número de pessoas de outras cidades, adiantando que serão quatro dias de muita folia, com apresentação de três bandas por dia, além de muita bateria, confetes e serpentinas.
O Carnaval Timóteo 2026 não contará com os tradicionais desfiles das Escolas de Samba dos anos 1980, devido as escolas terem se dissolvido ao longo do tempo, entretanto, a animação ficará por conta dos Blocos carnavalescos que resgatarão as tradicionais marchinhas.
Programação diversificada.
Iniciando na sexta-feira 13, às 18h com término às 4h da manhã, a abertura contará com três shows, dentre eles o show com Os Boleiros do Samba. Já no sábado, domingo, segunda-feira e terça-feira, dia 17, o evento iniciará às 16h, com término também às 4h. Todos os dias, haverá blocos carnavalescos e três shows. Os shows contarão com pesadas baterias de escolas de samba, marchinhas etc.
Segundo o prefeito Victor Prado, a realização do Carnaval Timóteo 2026, atende a um antigo anseio da população, que tem o Carnaval local como uma das mais prestigiadas festas populares do município.
Uma história que orgulhava
Motivo de orgulho da população, os grandes desfiles que marcaram época, iniciaram nos anos 1980, durando até início dos anos 1990, porém, o Carnaval em Timóteo desde os anos 1940 já contagiava a pequena população local.

O Mestre Luis Fabiano dos Santos, presidente da escola de Samba, Império da Sede, considera o retorno do Carnaval de Timóteo uma importante iniciativa, que favorecerá diversos segmentos da cidade, seja da economia, do turismo e cultural – Foto: Arquivo CG
História

O então topógrafo da Acesita, Wenceslau Martins Araújo, em dia de Carnaval – Foto: Arquivo particular
No início, o Carnaval em São Sebastião do Alegre não era muito diferente do restante do país. Nos quatro dias da festa, os foliões saíam em grupos, ou ‘cordões’, como se chamavam na época, cantando as tradicionais marchinhas aprendidas nos poucos rádios existentes no povoado. Todos se enfeitavam com roupas coloridas. As moças pintavam o rosto de ruge, da marca Madeira do Oriente, pintavam os lábios de batom vermelho, da marca Michel, e as unhas de esmalte também da cor vermelha.
Durante muito tempo, entre os anos 1940 e 1960, a foliã Jacyra Gomes, filha de Raimundo Martins Fraga, o Tiéco, e Maria Gomes, foi a rainha do Carnaval do antigo povoado. Os reis momos se revezavam entre seu pai ou Flivio Pimenta, e outros. Jacyra saía de casa acompanhada pela comitiva carnavalesca que cantava as marchinhas e jogava confetes e serpentinas. O bloco percorria o Largo da Praça, hoje a Praça 29 de Abril, a Rua Principal, hoje Avenida Acesita, e descia a rua Cine Lybamar, hoje rua Padre Antônio Araújo.
Nos anos 1960, os bailes de Carnaval aconteciam nas dependências do Clube Promet, animados por uma banda formada por músicos do lugar. Até serem proibidos no início dos anos 1960, os frascos de lança-perfumes estavam nas mãos da maioria dos foliões.
Embora o Carnaval no antigo distrito aglomerasse toda a família da sede em animados foliões, o Carnaval em Timóteo teve seu esplendor nos anos 1980, quando as Escolas de Samba tomaram a Alameda 31 de Outubro e mostraram o luxo, a criatividade e a paixão em disputas acirradas.
Unidos do Quitandinha

Um dos fundadores do Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Quitandinha, Joaquim Cirilo, o popular e saudoso Quincão – Foto: Arquivo particular
Joaquim Cirilo, o popular e saudoso Quincão, um dos fundadores do Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Quitandinha, foi importante não apenas para os desfiles da Alameda 31 de Outubro, mas para toda a história do Carnaval de Timóteo. ‘Se não fosse por sua insistência e esforço não existiria Carnaval na cidade’, reconhecia Gerson Piau, tesoureiro da escola do tradicional bairro Quitandinha.
‘Ele era o primeiro a chegar na escola. Ele representava tudo para nós’, reforçava Medianeira Maria Silva de Almeida, vice-presidente da Quitandinha e filha de Quincão, falecido em 2006. Outros fundadores da escola foram Nader Pereira e José Luis Sobrinho, entre outros.
Outra personagem não menos representativa para o carnaval de Timóteo e que merece todas as honras é Nadir Pinheiro Silva, a inesquecível Tia Nadir, falecida em 2003, e uma das fundadoras da Unidos do Quitandinha, ainda nos anos 1960. A escola foi a primeira a ser fundada na cidade.
Em 1962, Tia Nadir participou da criação da Escola de Samba Unidos de Acesita, posteriormente transformada na Unidos do Quitandinha, e cujos carros alegóricos desfilavam não apenas pelas principais ruas de Timóteo, mas também de outras cidades, como Coronel Fabriciano, Nova Era e até Governador Valadares.
Em 1980, no primeiro desfile das escolas de samba na Alameda 31 de Outubro, o samba-enredo da Unidos do Quitandinha foi um tema regional, ‘Às Margens do Piracicaba’, de autoria do compositor Helvécio Turso. O último título conquistado pela escola foi no ano 2000, com o samba-enredo ‘Mais Uma Estrela Que Brilha no Céu’, da dupla de compositores Zezinho Sorriso e Luis Gonzaga, que era presidente da escola.
Léscia Emídio, a porta-bandeira que personificava a Vai Quem Quer

Léscia Emídio, na Vai Quem Quer, um dos ícones do Carnaval timotense – Foto: Arquivo particular
Ao chegar em Timóteo, em 1961, logo após se casar, Léscia Emídio já era uma carnavalesca nata. Seu pai era um dos principais incentivadores do Carnaval em Ubá, onde promovia os tradicionais desfiles de blocos de sujos. Seu marido, de quem já se separou, veio para trabalhar no escritório da Acesita.
Antes dos grandes desfiles das escolas de samba na Alameda 31 de Outubro, principalmente nos anos 1980, Léscia sempre participou do Carnaval de Timóteo. Ela lembra com saudade dos animados bailes no Elite Clube e na Sede Campestre do Acesita.
‘O carnaval de antigamente, com suas inesquecíveis marchinhas, é insuperável. Os bailes eram um luxo, com aquelas fantasias lindas’, recorda Léscia. Como não poderia deixar de ser, ela não esteve de fora do movimento que criou as grandes escolas de samba no final de 1979.
Foi logo fazendo parte da Vai Quem Quer, nome que homenageia o humilde bairro de casas de madeira já extinto, e que ficava onde é hoje o Cruzeirinho. Entre os fundadores da escola de samba figuram Tadeu Damásio, Geraldo Camargo, Ênio Resende, e muitos outros.
Além de ser presidente da agremiação, com sede própria no bairro João XXIII, Léscia foi também a porta-bandeira da escola. O mestre-sala da Vai Quem Quer, José Soares, aprendeu a arte de representar a escola com a própria presidente.

A porta-bandeira Léscia e o mestre-sala, Jorge Soares – Foto: Arquivo particular
Outro mestre-sala que fez nome na Vai Quem Quer no final dos anos 1980 foi o premiadíssimo bailarino Jorge Soares. Ex-metalúrgico da Acesita, ele viajou o país inteiro integrando a Cia. de Danças Terpsícore, de Coronel Fabriciano, apresentando-se inclusive no Festival de Joinvile, o primeiro da América Latina e o quarto do mundo. Em 1998, Jorge Soares foi escolhido o melhor bailarino do Vale do Aço pela Aproc.
Entre os grandes carnavalescos da Vai Quem Quer, Léscia cita os nomes da historiadora Christina Társia, Cássio Guerra, Gentil Pires e Mendes. ‘A nossa escola tinha uma ala inteira composta somente por foliões de Belo Horizonte’, recorda. Acrescentando que Zé do Cavaco e Wildo Vieira foram alguns dos grandes compositores da agremiação.
Bocas Brancas

A Escola de Samba, Os Bocas Brancas – Foto: Arquivo particular
Daqueles bons e velhos tempos, Otávio Sperancini (in memoriam) em entrevista a Caminhos Gerais em 2011, relembrava da antiga república onde morou quando chegou a Timóteo – localizada nos arredores de onde é hoje o Escritório Central e do surgimento do nome Bocas Brancas.
Sperancini sempre esteve ligado ao Carnaval de Timóteo, desde os elegantes desfiles de fantasia em automóveis abertos pelas ruas do antigo distrito, até os memoráveis desfiles das escolas de samba na Alameda 31 de Outubro nos anos 1980. Em 2010, a exemplo do que ocorrera nos anos 1950, o alegre folião, um dos fundadores da Escola de Samba, Os Bocas Brancas, foi eleito Rei Momo do Carnaval de Timóteo.

Os Bocas Brancas, nos áureos carnavais timotenses- Foto: Arquivo particular
Sobre a fundação da tradicional escola de samba, que venceu o primeiro e o último desfile na Alameda 31 de Outubro, Otávio Sperancini recorda que o nome da agremiação surgiu numa mesa de boteco. ‘Estávamos tomando umas cervejas, tentando escolher um nome. Aí surgiu o assunto de palhaços. Então alguém lembrou das bocas pintadas de branco desses artistas. E o nome pegou’, relembra.






