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Revista Caminhos Gerais

A cidade medieval no centro-oeste da Inglaterra, foi precursora na fabricação de ferro, berço do gênero Heavy Metal e protagonizou um crescimento populacional exponencial

Berço do Heavy Metal e palco do histórico show de despedida do vocalista da banda Black Sabbath, o irreverente Ozzy Osbourne, Birmingham tem algumas peculiaridades bastante comuns com o Vale do Aço, além da forte influência do gênero musical.

O histórico show Back do the Beginning marcou o encerramento da banda Black Sabbath, que tanto influenciou músicos do Vale do Aço

A relevância da fabricação de produtos de ferro para a economia de Birmingham foi reconhecida já em 1538 e cresceu rapidamente à medida que o século avançava. Igualmente significativo foi o papel emergente da cidade como um centro para os comerciantes de ferro que organizavam as finanças, forneciam matérias-primas e comercializavam os produtos da indústria. Por volta de 1600, Birmingham tornou-se um centro comercial de uma rede de forjas e fornos que se estendia do sul do País de Gales a Cheshire e seus comerciantes vendiam produtos manufaturados acabados em lugares tão distantes quanto as Índias Ocidentais. Esses vínculos comerciais deram aos metalúrgicos de Birmingham acesso a mercados muito mais amplos, permitindo-lhes diversificar de ofícios menos qualificados.

A partir do século XVI, o comércio de minério de ferro e carvão levou ao estabelecimento de indústrias metalúrgicas. Durante a Guerra Civil Inglesa, no século XVII, Birmingham tornou-se uma importante cidade industrial na fabricação de armas. Ali, tornou-se uma especialidade e concentrou-se na área conhecida como “Gun Quarter”. Durante a Revolução Industrial (a partir de meados do século XVIII), Birmingham cresceu rapidamente e prosperou. A população de Birmingham cresceu de 15.000 habitantes no final do século XVII para 70.000 habitantes um século depois.

Em meio ao estigma de cidade industrial poluidora e exploradora da força de trabalho de seus habitantes, na primeira metade do século XX, juntamente com a rebeldia impulsionada pelo movimento da contracultura em expansão na Europa e nos Estados Unidos, Birmingham torna-se um forte centro cultural, competindo inclusive com a capital Londres.

A cidade foi berço das mais importantes bandas do gênero pesado, como o Black Sabbath, precursora do heavy metal, bem como o Judas Priest, Slade, Fine Young Cannibals, Daed for Nepalm. Bandas com pegadas de altos decibéis sonoros, estas cravaram em Birmingham a marca de ser o berço de um gênero que sub dividiu-se em diversos outros, como Hard, Thrash, Death, Black, Punk, e outros. Bandas como Electric Light Orchestra (ELO), Duran Duran, The Moody Blues, The Move, Trafic, The Spencer Davis Group, , UB40, The Applejacks, The Change, Magnum entre muitas outras, também percorreram as estradas do Reino Unido e ganharam o mundo, nos estilos psicodélicos, progressivo, punk, pop rock, blue, soul e outros.

O Black Sabbath, conhecida por sua sonoridade pesada e letras sombrias, neste último sábado (05/07) levou Birmingham aos quatro cantos do mundo, por meio da transmissão online do mega show Back to the Beginning. O evento musical que teve como tema, a despedida de seu vocalista, Ozzy Osbourne, que vem lutando contra a doença de Parkinson, foi assistido presencial por mais de 45 mil pessoas e online, por mais de 1,2 milhão em todo o mundo.

Por ser expoente da indústria do ferro, ser berço de memoráveis bandas heavy metal, e vivenciar um crescimento populacional exponencial na época, por aqui, no Vale do Aço, centro industrial do aço, notabilizado também por ser berço de um considerável número de bandas de rock pesado e experimentar uma explosão demográfica, a região do Vale do Rio Doce e do centro-oeste da Inglaterra notabilizam-se por suas identidades socios culturais e econômicas. No sábado, o Vale do Aço e Birmingham se conectaram para assistir o histórico evento no Villa Park, que durou cera de 10 horas. Segundo os organizadores, o evento arrecadou cerca de 1,4 bilhão de reais, que será doado à três instituições na área da saúde.

Como em Birmingham, o som pesado sobressaiu no Vale do Aço com forte predominância. Surgiram por aqui na década de 1990, a pioneira Pó Preto, nome inspirado na forte fuligem de pó expelido pela Usiminas no bairro Cariru, onde a banda foi criada. Outras bandas como In Memorian (black metal) reconhecida mundialmente, Zombie Factor e Mamuthe também escreveram suas páginas na história do rock no Vale do Aço, assim como The Atomic Fear de Timóteo e a Apantropia. Festivais como o Jovens Bandas e Gates, confirmavam a força do gênero na região.

Revolta – O Filme

A banda “Revolta” de Coronel Fabriciano

Atualmente a banda Revolta (Metal VDA Psicodélico e Groov), de Fabriciano, foi protagonizada no filme “Revolta – O filme”. Revolta, a primeira banda brasileira a lançar um filme musical. O roteiro crítico, trata-se da inclusão social e denuncia o caos e a decadência da sociedade e dos políticos.

Os Capiau (Hardcore), de Ipatinga, é a mais antiga ainda em atuação. Também na pegada Hardcore, a banda Hasta Cuando se apresenta em espanhol.

Outras bandas como Mãe Serpente (Stoner Metal), Fumaza, Death Spit (Death Metal) segue preservando as várias vertentes do rock pesado, que teve sua inspiração na cidade inglesa de Birmingham.

Mercado independente

O vocalista e baterista da banda Revolta, Nida Guimarães, acredita que o fato do Vale do Aço e da cidade inglesa produzirem este gênero musical, deve-se à realidade similar das duas regiões, por serem dominadas por classes operárias, que têm os mesmos apelos e protestos sociais.

Nida recorda de alguns shows históricos do gênero, com as bandas Sarcófago e Overdose, nos anos 1990 em Ipatinga. O Riacho Rock em Fabriciano e o mega show do Sepultura em Ipatinga. O Festival Gates de Fabriciano que está indo para a 15º edição, tem trazido bandas autorais nacionais e internacionais, disse.

O vocalista da Revolta, ressalta ainda que o forte da região é o público, que tem prestigiado maciçamente as bandas heavy metal. De acordo com Nida, o respeito à diversidade e às minorias, característica marcante entre os profissionais da música heavy metal da região e o apoio da classe empresarial aos eventos, têm assegurado um fã clube fiel.

Diferentemente do que apregoa a grande mídia, de que a “música pesada” está em declínio, Nida acredita que o gênero está sendo sabotado, por não fazer parte do padrão ideológico e de imagem “bonitinho” que a indústria pop deseja. Para ele, cada vez mais as bandas heavy metal estão surgindo no mundo inteiro, por meio do mercado independente.

Espaço heavy metal

O Vale do Aço conta também com amplos espaços para apresentação do gênero musical, como o Area 92, sede do Impuros Brasil Moto Clube, em Ipatinga. O Garajão, também em Ipatinga abre espaço para o gênero, sendo a maior casa de rock do Brasil. Em Fabriciano, Nida destaca o Dinos Art Bar e o coletivo Sins Underground, responsável pelo festival Gates, que acontece anualmente em Coronel Fabriciano.

Birmingham tem cerca de 500 anos e o Vale do Aço, aproxima-se de um século, entretanto, as vibrações sonoras se convergem em um só timbre das guitarras estridentes e letras contundentes. As peculiaridades entre duas regiões tão distantes, podem até ser traduzidas por suas vocações e realidades similares, porém, é a universalidade da música e suas inspirações que fazem a região metropolitana do Vale do aço e a Grande Birmingham serem tão peculiares.

 

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