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Revista Caminhos Gerais

Não apenas a idade de um carro o torna relevante em uma coleção, mas também sua representação ou visibilidade na história

Cley Vilian Sathler com seu raro Ford 29 e o Caprice Classic, o único no Brasil, presenteado por Rinaldo Campos Soares – Arquivo CG

E é nesse contexto que o colecionador de carros antigos Cley Vilian Sathler, morador no bairro Bom Retiro em Ipatinga avalia sua coleção, que conta com 20 carros. Dentre eles, um raríssimo Ford 29 capota de lona/conversível, um Ford 34, um Sinca Chambord, dois caminhões, sendo um Dodge e um Chevrolet 54, um Jeep Willys militar todo original, três Galaxies, sendo um deles, pertenceu ao pioneiro Selim José de Salles e outros. Entretanto, o xodó de Cley, é um Caprice Classic americano V8, da Chevrolet. Este pertenceu ao então presidente da Usiminas, Rinaldo Campos Soares. O modelo de luxo, vindo dos EUA, foi presenteado ao presidente da siderúrgica pelo Consulado do Japão nos EUA. O único modelo no Brasil, veio de navio para o país, onde ficou guardado na garagem em Belo Horizonte por longos anos.

O luxuoso Caprice Classic da Chevrolet, foi presenteado a Rinaldo C. Soares pelo Consulado do Japão nos EUA e embarcado no navio até o porto em Vitória – Foto: Arquivo CG

Neste período, Cley era motorista de Rinaldo, quando nos finais de semana, levava noivas para a igreja nos carros de luxo de sua coleção. O então presidente da Usiminas o perguntou se ele ainda carregava noivas. Cley confirmou que ainda fazia este bico. Em seguida, Rinaldo disse que estava enjoando do carro vindo dos EUA, e que gostaria de doá-lo para este serviço de levar noivas na igreja. Um tanto perplexo, Clay pouco acreditou que ali, estava sendo presenteado por Rinaldo Campos Soares com um carro que o foi presenteado pelo consulado japonês nos EUA. Após a morte de Rinaldo, sua esposa, Conceição Soares, ligou para Cley e disse que seu esposo havia falado que o carro era dele, indagando-o se ele poderia buscar o carro, porque devido seu tamanho, estava prejudicando a movimentação na garagem do prédio. Feliz e agradecido, Cley foi a Belo Horizonte e resgatou o carro que ele considera uma peça de altíssima importância em sua coleção.

Meu caminhãozinho Ôpel incendiado

Não só surpresas agradáveis marcaram a relação de Cley com os carros de sua vida.

Imortalizado na fotografia de José Isabel do Nascimento, seu caminhão, o Ôpel, fabricado na Alemanha, torna-se personagem no conflito conhecido como “O Massacre de Ipatinga” – Foto: José Isabel do Nascimento

Ao chegar em Ipatinga em 1963, vindo de Mantena, seu pequeno caminhão, um Ôpel, fabricado na Alemanha, transformou-se no símbolo de um dos mais dramáticos e polêmicos eventos da história de Ipatinga, imortalizado como “O Massacre de Ipatinga”. Seu “caminhãozinho” como gosta de referir-se ao veículo, também foi imortalizado na famosa fotografia do fotógrafo José Isabel do Nascimento, que registrou um militar e uma metralhadora em sua carroceria, pouco antes do grave conflito que deixou vários operários mortos. Inclusive, o fotógrafo também morreu nas circunstâncias deste fatídico evento. Naquele dia, no mesmo ambiente do histórico conflito, seu caminhão foi incendiado em meio à multidão.

O triste destino do “caminhãozinho” Ôpel, que Cley trouxe para fichar na Usiminas em 1963, foi consumido pelo fogo no fatídico conflito – Foto: Arquivo Particular

Cley recorda que ainda jovem, na fazenda de seu pai, o Ôpel encontrava-se parado devido a safra do café já ter sido encerrada. Seu pai então sugere que ele tentasse fichar o caminhão na Usiminas. Naquela época, corria notícias que Ipatinga era a terra das oportunidades. Chegando a Ipatinga, Cley então aluga o caminhão para a siderúrgica, quando 29 dias depois, foi locado para atender o batalhão da polícia militar. Naquele episódio, o insólito destino de seu caminhão adiaria de vez seus planos em Ipatinga, já que seu caminhão não foi pago nem pela polícia e nem pela Usiminas.

Motorista da Usiminas

Diante da perda do caminhão, Cley inicia o trabalho como motorista de uma empresa de ônibus no ainda distrito de Ipatinga, até que em 1964, a Usiminas o oferece uma vaga como motorista na área interna da empresa. Sua dedicação e esmero como motorista, chama atenção do chefe do transporte, que o direciona para atender a alta chefia. No novo setor, Cley passa a dirigir o carro que atenderia o então engenheiro Dr. Rinaldo.

O Chevrolet 1941, que foi Taxi em Belo Horizonte, foi utilizado também para levar noivas para a igreja – Foto: Arquivo CG

Durante sua temporada na Usiminas, Cley adquiriu o caminhão Dodge e o fichou na siderúrgica, vindo a realizar seu antigo sonho. O Dodge com motor MWM, é outro veículo que o enche de orgulho por ter prestado serviço apenas para Usiminas desde novo e permanece totalmente conservado em sua garagem. Outro caminhão raro em sua coleção, é um Chevrolet 1951.

Morando no alojamento da empresa no Horto, Clay compra seu primeiro carro de passeio, um Ford 29 para duas pessoas, conhecido como Baratinha. Ali, seu amor e entusiasmo por carros antigos iniciava por acaso, disse. O colecionador revela guardar um certo arrependimento por ter vendido a Baratinha. Segundo ele, aquele calhambeque atualmente é um dos carros mais procurados por colecionadores, sendo tratado como uma verdadeira joia automobilística.

Ouro raro carro de sua coleção, o Ford 1934 – Foto: Arquivo CG

Cley incentiva qualquer pessoa a possuir um carro antigo, que segundo ele, é importante por representar a história do automobilismo nacional e internacional, porém, adverte que é um hobby que exige muita dedicação e cuidados especiais. Para ele, colecionar carros antigos, além da complexidade de exigir manutenção permanente por se tratar de motores refrigerados à água, elemento com forte potencial corrosivo, inclusive quando pouco acionado, exige amplos espaços para protegê-los, em muitos casos, dotado de uma estrutura similar à de uma oficina mecânica. Cuidados como manter a pintura em bom estado, lubrificação em dia e proteção das borrachas, são tarefas indispensáveis para maior durabilidade de um carro. Outro fator que Cley considera um desafio para o colecionador, são as dificuldades de encontrar peças de reposição de carros antigos no mercado de auto peças. Diferentemente dos EUA, que existe um amplo mercado de peças de carros fora de linha, no Brasil, em muitos casos, é preciso recorrer ao canibalismo.

Seu filho Ronaldo Sathler, colocando o Ford 29 para funcionar após 20 anos parado – Arquivo CG

Cley guarda seus 20 carros em três endereços diferentes, reafirmando que vive por conta de sua coleção, atividade que segundo ele, o proporciona muito prazer.

Perguntado a Cley se ele colaboraria com um projeto de instalação de um Museu do Automóvel em Ipatinga, isto é, exibir sua coleção para o público, juntamente com outros colecionadores, com critérios científicos de catalogação, o colacionador não disse sim, e também não disse não. Certamente que um Museu do Automóvel na região, espaço cultural de grande relevância para a região, cuja história conecta com a história da Usiminas, que foi criada no contexto da industrialização do país, tendo a indústria automobilística como seu principal cliente, no período de JK, o museu refletiria de forma impactante no setor do turismo regional, sabendo-se que esta categoria de museu tem se tornado preferencial.

O luxuoso Dodge Magnum de sua coleção, da década de 1970 – Foto: Arquivo CG

Antigos do Vale e Clássicos sobre Rodas

O Volkswagem 4 portas 1969, em exposição no Shopping do Vale, pertencente ao colecionador Roberto Alvim, foi vendido na primeira concessionária Volks da região, a Divaço, em Coronel Fabriciano – Foto: Arquivo particular

Grupos organizados como os “Antigos do Vale”, com sede em Ipatinga, “Clássicos sobre Rodas” que congrega Coronel Fabriciano e Timóeo e o “Clube do Fusca Vale do Aço” somam mais de 400 carros na região metropolitana. Roberto Alvim, fundador do Clássicos sobre Rodas, acredita que os colecionadores, ou mesmo aquele que possui apenas um carro, têm prestado um relevante serviço para a preservação da história do automobilismo. Para ele, o fato de uma pessoa comparar os carros das décadas passadas com os atuais, embarcando tecnologias super avançadas, pode conduzir a uma reflexão sobre as transformações que a mobilidade vem se desenvolvendo frente as questões ambientais e de qualidade de vida.

Customização Hot Rod

O Colecionador Humberto Torquetti, restaura relíquias do passado, customizando-os no estilo Hot Rod – Foto: Arquivo particular

Outra atividade na região que tem se notabilizado pelo esmero e contribuído para a preservação da história do automobilismo, é a restauração de carros antigos na oficina particular de restauro do colecionador Humberto Torquetti. Sua oficina tem restaurado verdadeiras joias sobre rodas, especialmente modelos que fizeram história na indústria automobilística americana, como o Mercury 1949, Ford Wood 1946, estruturado em madeira, Chevrolet 1937 e 1957 e um Dodge 1934. Na fila para restauro, encontra-se um raro Buick 1958 e um Chevrolet Belair, debaixo da lona. Segundo Humberto, o restauro de seus modelos não tem o compromisso de reconstituir o veículo em sua total originalidade, mas, customizá-lo no estilo Hot Rod. Este estilo se refere a carros clássicos, geralmente americanos, das décadas de 1920 a 1950, modificados para alta velocidade e estética agressiva com pintura personalizada.

 

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