Carta de Moreira Torres reforça a conexão do Sobrado de Juca Pontes com a criação do Perd e a necessidade de sua preservação como patrimônio de relevante significado histórico
A Caminhos Gerais publica na íntegra a histórica carta enviada pelo marlierense José Moreira Torres, ao amigo, Amaro Lanari Guatimosin, então presidente da Usiminas, sobre a história da Ponte Queimada e da criação do Parque Estadual do Rio Doce.
Inicialmente Torres relata sobre as motivações que levaram a construção da Ponte Queimada ainda no século XVIII e suas diferentes fases, e sobre o histórico dia em que o bispo D. Helvécio com sua comitiva chega a Marliéria, hospeda-se no sobrado de Juca Pontes e segue para celebrar uma missa na margem da Lagoa Nova, atual Lagoa do Bispo.

Traçado da antiga Estrada do Degredo, tendo a travessia da Ponte Queimada no Rio Doce – Reprodução do livro “A Conquista do Cuieté” de José Araújo
“Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1979
Prezado amigo e colega, Amaro Lanari Guatimosin
Abraços
Tomando conhecimento que foi requerida, na justiça, uma ação visando impedir que a Acesita reconstrua a Ponte Queimada e utiliza a estrada que atravessa o Parque Florestal do Rio Doce, achei oportuno enviar-lhe esta carta na suposição de que o “histórico” nela contido possa servi-lhe de subsidio na defesa do ponto-de-vista de sua empresa.
Em 1956, mais ou menos no meio do ano (agosto de 56, se não me engano) – publiquei um artigo em um suplemento dominical do “ESTADO DE MINAS” com o título “A HISTÓRIA DE UMA PONTE”. Essa história da Ponte Queimada que consegui, consultando durante seguidas noites, a coleção da Revista de Arquivo Público Mineiro, na casa de seu saudoso compadre e amigo Sylvio Vasconcelos. Vejamos que ficou guardado da minha memória da matéria publicada nesse artigo escrito, garantidamente, há mais de vinte e três anos.
1 – Na segunda metade do século XVIII, tendo já esgotado o ouro de aluvião do centro de Minas, a Administração da Capitania procurava o precioso metal nos mais diferentes pontos do nosso território a fim de saciar a auri sacra fames dos governantes portugueses. No último quartel do século circulou em Ouro Preto (Vila Rica na época) a notícia muito auspiciosa, da existência de ouro no Rio Cuieté. O governador da Capitania de Minas recebeu, imediatamente, instruções de Portugal no sentido de que abrisse uma estrada ligando Ouro Preto ao Cuieté e transportasse para lá, uma leva de trabalhadores para realizar a exploração. Naquele tempo, 1780 mais ou menos, a presença do homem branco chegava a Antônio Dias e o Alfié. Dali para baixo, a região do Vale do Rio Doce era habitado por índios, sendo que a partir da confluência do Rio Piracicaba, era território dos temíveis índios botocudos, comprovadamente antropófagos. Os bandeirantes chefiados por Antônio Dias de Oliveira ( o mesmo que deu o nome ao conhecido bairro de Ouro Preto) desceram pelo Piracicaba bateando ouro, até uma curva do rio, situada entre as estações de Sá Carvalho e Ana Matos. Na mesma época, primeira metade do século dezoito, um grupo desses bandeirantes paulistas explorou a região de Alfié. Além de Antônio Dias e o Alfié, continuou por longo tempo, sendo região dos índios, sendo que em Marliéria, Jaguaraçu, Cel. Fabriciano, etc, habitavam os machacalis (ou maxacalis), que não eram canibais.
Numa pequena parte do município de Marliéria, as águas correm diretamente para o Piracicaba, através dos ribeirões da Onça Pequena e da Onça Grande. Na parte restante, que é a maior – onde está incluído o Parque Floestal, as águas correm diretamente para o Rio Doce. As duas bacias, do Piracicaba e do Rio Doce são separadas por uma cadeia de montanhas, cujo pico principal tem o nome de Jacroá. Esse nome é de origem indígena; provém de Jacaroá, o significa: lago, charco, segundo um dicionário da língua tupi que consultei na Biblioteca Nacional. A mata de Marliéria, nela incluída o Parque, os índios denominavam JACAROÁ. Com esse nome, os selvícolas designavam toda a mata de Marliéria, como suas numerosas lagoas e pântanos, bem como a montanha de onde eles avistassem essas lagoas. Há 170 anos passados o Parque Floestal do Rio Doce era o Jacroá dos nossos indígenas.
Retomando a história do Cuieté que estava contando, em 1782 o governador da então Capitania de Minas Gerais, D. Rodrigo José de Menezes inaugurou a estrada que mandou construir. O governador, acompanhado de numerosa comitiva, fez a longa viagem de Vila Rica ao Cuieté, seguindo por uma estrada que passava pelo atual morro do Jacroá , seguia margenado o ribeirão do Belém e depois atravessava o Rio Doce no local, que depois passou a ser conhecido como Ponte Queimada. (Não estou muito seguro, se o Governador Colonial da época da inauguração da estrada e da ponte era D. Rodrigues José de Menezes. Talvez fosse D. Antônio de Noronha. (Uma rápida consulta à História Antiga de Minas Gerais, escrita por Diogo de Vasconcelos, esclarece quem era o governador no ano de 1782).
A região do Parque é descrita, no roteiro da viagem, como uma área coberta de lagoas “pestiferas”, com muitas cobras extremamente venenosas e cheia de animais ferozes.
A exploração de ouro no Cuité redundou num completo fracasso. Era falsa a notícia da existência de ouro naquelas longínquas paragens. O acesso ao Cuieté constituía uma tarefa difícil e muito perigosa. Ao lado de todos os riscos da longa caminhada, havia o perigo representado pelos botocudos. Para não perder de todos os gastos e o tempo consumidos, o governo colonial resolveu transformar a região do Cuité em Degredo dos Malfeitores. Grande parte dos condenados, que cumpriam penas nas cadeias de Ouro Preto, Mariana e Sabará foram levados para lá e entregues à sua própria sorte. Esse confinamento de delinquente na região de Cuieté perdurou por pouco tempo. Uns 10 ou 12 anos, no máximo. Em 1794 – ou em torno dessa data – a ponte foi incendiada. Daí, o nome: PONTE QUEIMADA. Veja bem que o nome Ponte Queimada tem quase 200 anos. Nunca se soube quem pos fogo na ponte; uns são de opinião que os incendiários foram os degredados; outros acham que foram os próprios policiais, que desejavam acabar com aquela arriscada missão e há quem pensa que foram os índios.
O que importa para a defesa da causa da Acesita é que a estrada atravessando a área do Parque Florestal e a ponte sobe o Rio Doce foram inauguradas pelo Governador da Capitania de Minas Gerais no ano de 1782.
2 – Guido Marlière, um militar francês inimigo de Napoleão, que serviu a D. João VI e D. Pedro I, esteve aí na região de Marliéria comandando as tropas que lutavam contra os botocudos, entre os anos de 1818 e 1824. A residência permanente de Guido Marlière era em Ubá, ou melhor, Guidoval. O quartel central do comando na guerra contra os índios ficava nas margens do Ribeirão da Onça Pequena (ribeirão da Oncinha, como hoje se fala), situado a 3 km do Piracicaba.
Alguns historiadores afirmam, mas não comprovam, que Guido Marlière reconstruiu a estrada e a ponte, a fim de encurtar a distância entre Ubá o o Quartel da Onça Pequena. Essa primeira reconstrução da Ponte Queimada teria sido feita no anos de 1820. Essa segunda ponte teria sido levada pelas enchentes, poucos anos depois de reconstruída.
3 – Há mais ou menos 100 anos, um tio avô de minha mãe, de nome JOSÉ MOREIRA, reconstruiu a estrada e a ponte, e esta beneficiou uma permanente troca de comércio entre as margens direita e esquerda do Rio Doce. A obra feita por José Moreira foi a que durou por mais tempo. Só na primeira década deste século, uns 15 ou 20 anos depois de pronta, é que uma outra grande enchente levou-a.
4 – A ponte que você conheceu, que era de concreto, foi feita há uns 30 anos, aproximadamente, foi obra da Acesita ou do Governador Milton Campos.
Todas as épocas, a ponte tinha o nome de Queimada. Daí a confusão de muita gente. Alguns historiadores atribuindo o trabalho pioneiro a Guido Marlière e os descendentes do velho José Moreira inconformados por ninguém reconhecer a primazia de sua obra. O que importa é que está comprovado com os documentos históricos. A ponte, antes do local ser conhecido como Ponte Queimada, foi construída por ordem do governador D. Rodrigo José de Meneses e inaugurada por ele no ano de 1782.

A Ponte Queimada, reconstruída no século XIX por José Moreira, também levada pelas fortes enchentes do Rio Doce – Foto: Acervo particular
A HISTÓRIA DO PARQUE FLORESTAL DO RIO DOCE

Sobrado de Juca Pontes, importante patrimônio histórico e cultural ainda preservado, que hospedou a comitiva de D. Helvécio em 1935 – Acervo Particular
O Parque Florestal do Rio Doce existe graças a várias pessoas, destacando, em primeiro lugar, um tio meu, já falecido, José Moreira Pontes, mais conhecido como Juca Pontes. A casa desse meu tio (um grande sobrado ainda existente em Marliéria) era a hospedaria de todos os visitantes ilustres que apareciam em minha terra.
Em 1932, D. Helvécio Gomes de Oliveira, Arcebispo de Mariana, visitou Maliéria pela primeira vez, e ficou hospedado, com sua numerosa comitiva, no sobrado desse meu tio. Em conversa com o bispo, tio Juca Pontes falou sobre a beleza da mata (há 40 ou 50 anos passados, dávamos o nome da Mata a parte de Marliéria, cujas águas correm diretamente para o Rio Doce), com suas inúmeras lagoas, sua fauna e flora especiais e principalmente, os mosquitos e febre malária que eram o tormento de todos os que se aventuravam em desbrava-la. A conversa interessou tanto ao Arcebispo que ele resolveu subir a cavalo até o alto do Jacroá. Desnecessário dizer que ficou deslumbrado com o espetáculo da beleza que vislumbrou do alto do morro. Gostou tanto do passeio que prometeu que, numa outra visita a Marliéria , ele celebraria uma missa nas margens da Lagoa Nova. Isso realmente aconteceu 4 anos depois. Em 1935, D. Helvécio voltou a Marliéria. Desta vez, o meu tio preparou uma picada até as margens da lagoa. Construiu uma pequena capela e uma casa para uma noitada do bispo e dos padres que o acompanhava. Naquela época existia um jornal em São Domingos do Prata – chamado a Voz do Prata – que fez uma cobertura completa dessa missa celebrada nas margens da Lagoa Nova. Esse jornal não circula mais. É possível consultar um exemplar de julho de 1935 – época da visita do Arcebispo – com o senhor Geraldo Santiago, em São Domingos do Prata.
Nessa oportunidade, mais uma vez, Juca Pontes conversou com D. Helvécio sobre a importância daquela mata e sobre a forma predatória que ela estava sendo desbravada. Sugeriu ao Sr. Arcebispo que ele tivesse meios, recomendasse ao Benedito Valadares, constituir uma reserva naquela região, por que se isso não fosse feito, dentro de uns 10 ou 20 anos toda aquela floresta estaria transformada em carvão para alimentar os fornos da Belgo Mineira. Naquele mesmo anos de 1935, foi lançada a pedra fundamental da usina de Monlevade, com presença de Getúlio, Benedito Valadares, Antônio Carlos, etc, festa esta a que assisti, levado por meu pai.
- Helvécio, de volta a Mariana, enviou uma carta ao Benedito, sugerindo a criação do Parque. Benedito entregou a carta a Israel Pinheiro, Secretário de Agricultura, para que ele examinasse a sugestão do bispo. Uns quatro anos depois o Israel decidiu pela demarcação do parque e mudou á para a Mata, um topógrafo de nome Herculano Mourão. A demarcação da linha do parque demorou por vários anos e só em 1944 – o Secretário já era Lucas Lopes – é que saiu o decreto estadual de fundação o PARQUE FLORESTAL DO RIO DOCE.
A Lagoa Nova, dos tempos da minha mocidade, passou a se chamar Lagoa D. Helvécio.

A exuberância da Lagoa Nova, hoje Lagoa do Bispo – Foto: Elvira Nascimento
O topógrafo acima mencionado, Herculano Mourão, ainda é vivo, mora em Belo Horizonte , tem o seu nome na lista telefônica. É portanto, muito fácil comprovar a veracidade de tudo que estou contando.
A minha tia, Maria do Carmo Pontes, viúva de Juca Pontes, mora lá em Marliéria, no mesmo sobrado do tempo de seu marido e pode relatar, nos seus mínimos detalhes a trabalheira que teve para hospedar D. Helvécio, acompanhado de muitos padres, prefeito, juiz de direito, médicos – em resumo, um grupo de mais de 20 pessoas, não só no velho sobrado de Marliéria como também lá na beira da Lagoa Nova.
Amaro, eu não faço rascunho quando escrevo para amigos. É por essa carta que vai seguir para você cheia de pequenos erros que tive a paciência de corrigir. O que importa é que ela leva a mensagem que eu gostaria de lhe transmitir, que é a seguinte: quem (dentro de poucas vivas) tem direito a falar sobre o Parque Florestal do Rio Doce, é a viúva do meu tio Juca Pontes e o topógrafo Herculano Mourão, já aposentado do serviço público mineiro.
Mais um abraço do amigo
José Moreira Torres
Rua Timóteo da Costa, 623 – Apto 401 – Leblon – Rio






