Sepultado em Antônio Dias, a lápide do importante bandeirante foi quebrada a marretadas e seus pedaços utilizados na reforma da escadaria da igreja
A Caminhos Gerais publica um relevante artigo sobre a história do bandeirante Antônio Dias de Oliveira, fundador da cidade colonial de Antônio Dias, tempos depois de fundar Vila Rica (Ouro Preto), escrito pelo então comerciante antoniodiense, Raul de Carvalho.
O autor do artigo, que faleceu na década de 2000, narra com riqueza de detalhe as agruras que o desbravador bandeirante passou desde sua saída de Taubaté (SP), até chegar em Vila Rica (Ouro Preto), descobrir o ouro e descer o Rio Piracicaba até chegar ao Arraial Velho em 1º de junho de 1706, marco do surgimento de Antônio Dias – Abaixo.
Em seu artigo, Raul de Carvalho reafirma a altíssima relevância histórica da cidade de Antônio Dias no contexto que vai muito além de sua conexão com o mais importante evento ligado ao bandeirantismo da Colônia. Segundo os principais historiadores brasileiros, Antônio Dias de Oliveira foi um dos mais importantes bandeirantes de nossa história.
Nele, Raul de Carvalho revela o descuido com essa rica memória, ainda em tempos atrozes.
Antônio Dias, cidade colonial

Provavelmente, o registro fotográfico mais antigo de Antônio Dias – Abaixo, no século XIX – Foto: Reprodução do livro “Josefa e sua Gente”
A cidade de Antônio Dias, além de se posicionar nos limites geográficos da corrida do ouro, partindo de Ouro Preto por meio do Rio Piracicaba, foi ponto de partida de uma estrada ligando o Médio Piracicaba ao Rio Santo Antônio no Médio Rio Doce. Estrada essa aberta no século XIX, abriu caminho para os tropeiros e o surgimento de Coronel Fabriciano, Santana do Paraíso e Ipatinga.
Ainda hoje, Antônio Dias se esforça com políticas públicas na valorização deste legado histórico. Cidade primaz e berço de todo o complexo siderúrgico do Vale do Aço, é escola pela própria natureza. Por isso, é a porta de entrada para a imensurável viagem ao passado. Diante deste legado, a cidade projeta um espaço cultural voltado à preservação de sua memória, uma homenagem justa ao bandeirante que doou seu próprio nome, para sua população. O museu municipal anunciado pelo prefeito Elcio Ataíde – Elcinho, certamente assegurará a conexão histórica da cidade com o mais rico período da província, conhecido como Ciclo do Ouro.
Veja a seguir o significativo artigo sobre o bandeirante paulista, Antônio Dias de Oliveira e sua jornada.

Edificação atribuída à casa do bandeirante Antônio Dias de Oliveira – Foto: Arquivo particular
Os Fundadores
Corria o ano de 1697!
Taubaté, a fabulosa Sagres Paulista, despejava nas Gerais um sem número de aventureiros, que vinham em busca dos Cataguazes. Eram as suas intrépidas bandeiras que fascinadas por histórias de riquezas fantásticas, caminhavam por áreas incultas, vencendo verdadeiros estirões, com várias dificuldades e problemas quase insolúveis, com a finalidade de procurar ouro e pedras preciosas.
As bandeiras eram de diferentes tipos, tamanhos e condições as mais diversas. Algumas eram grandes, enormes mesmo, dispondo de recursos abundantes, outras, ao contrário, possuíam suporte econômico modesto e contavam com número limitado de participantes.
No final de 1697, ou princípio de 1698, uma pequena bandeira, organizada por Antônio Dias de Oliveira, deixou Taubaté com destino às Gerais. Ao concluir árdua jornada, vencendo os mais diversos percalços, caminhando por regiões ermas e inóspitas, depois de atravessar rios, matas e terrenos pantanosos, a bandeira atingiu uma cadeia de montanhas. As dificuldades aumentaram: serra sucedendo serra, subidas de ladeira íngremes, descidas e espigões, transposição de vales mil e uma peripécias. A esse tempo a bandeira sentiu-se desgastada, mas a marcha prosseguia sem intervalos. Quando passaram o contraforte da serra em que se encontravam surgiu diante deles, no outro lado, bem no alto, o pico do Itacolomi – duas pedras agregadas em um amplexo eterno – era o sinal procurado pelos bandeirantes. O ânimo aumentou, o entusiasmo se fez presente. Em pouco tempo, de esperanças renovadas, galgaram a serra e desceram para o vale, lá no fundo, encontraram o ribeirão, água de pouca monta, com coloração escura – era o Tripuí.
Concluída a viagem, de bateia em punho, os faiscadores começaram o seu trabalho. Ao lavar o cascalho, viram surgir grãos escuros, desconhecidos por eles, mas que, tratados pelo fogo, revelaram ouro de excelente qualidade. Era a descoberta do ouro preto – tão importante que deu nome à cidade.
Antônio Dias permaneceu quatro anos em Ouro Preto, onde a sua bandeira descobriu várias minas. O seu retorno a Taubaté ocorreu em 1702.
Depois de descansar algum tempo, a fim de refazer do desgaste da viagem feita à região de Ouro Preto, Antônio Dias reorganizou a sua bandeira, inclusive com a admissão de novos elementos. Retornou a Minas Gerais com outra disposição e em busca de novos horizontes. Vinha para a bacia do Rio Piracicaba, orientado por Borba Gato, que já havia passado pela região e testado o seu potencial aurífero. Após um esforço ingente, enfrentando obstáculos semelhantes aos da viagem anterior, a bandeira encontrou o Rio Piracicaba e seguiu pela margem, rio a baixo, até encontrar um lugar conveniente, em que havia melhor acesso às águas do rio. Ali estabeleceu o seu acampamento. Corria o ano de 1706 – era o embrião do arraial, que, posteriormente, passou a chamar “Antônio Dias – abaixo”, (hoje, o bairro do Arraial Velho).
Passado algum tempo, os bandeirantes transferiram o seu acampamento para três quilômetros abaixo (hoje, a Rua Presidente Vargas, centro da cidade).

Rua Presidente Vargas no centro de Antônio Dias, local onde o bandeirante montou seu segundo acampamento (fotografia de 1940, quando celebrava o centenário de Coronel Fabriciano Carvalho de Brito) Arquivo particular
As águas do Rio Piracicaba eram abundantes e muito claras, um rio de rara beleza! Possuía em seu leito, enorme reserva de ouro em aluvião, que podia ser encontrado em seu cascalho ou nas catas. Nas barrancas, um ou outro veio do metal precioso. Ouro fino, de coloração amarela, de ótima qualidade e que podia ser explorado em quase toda a extensão do Piracicaba.
A bandeira permaneceu na área por muitos anos e Antônio Dias, já contando 90 anos e desgastado pelo trabalho, faleceu em 1736. Foi sepultado no cemitério local, no terreno onde se localiza o adro da igreja católica de Antônio Dias. A sua sepultura foi conservada até 1927, quando o cemitério foi destruído, durante a reconstrução da matriz. A laje, que guarnecia a sepultura do fundador da cidade, foi simplesmente quebrada e usada como material de construção na escadaria da igreja.







Suas iniciativas são sempre muito massa!
Obrigado amigo. Escolhi essa labuta, sempre.
Parabéns pela reportagem. Muito legal conhecer a história da nossa região.