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Revista Caminhos Gerais

Três cidades com a mesma vocação histórica, a redução do minério de ferro, celebram no mesmo dia seus aniversários

Antes da siderurgia, a mineração.

Apesar de Timóteo, Ipatinga e João Monlevade celebrarem juntas seus 62 anos de emancipação, ambas tem o fio da história ligada às primeiras reduções do minério de ferro em Minas Gerais.

Diante da necessidade de alternativas à estagnação da mineração aurífera, a atenção aos minerais não preciosos, se voltaram para a prata, o ferro e o manganês, em Minas Gerais.

A partir da introdução da siderurgia rudimentar pelo geólogo e metalurgista alemão, o Barão de Wilhelm Ludwig von Eschwege, também conhecido como Barão de Eschwege, em Congonhas do Campo, a industrialização do minério no país teve início em 1812, na Usina Patriótica.

Entre os anos 1810 e 1821, o Barão de Eschwege contratado pela coroa portuguesa percorreu o território mineiro e realizou o primeiro grande levantamento geológico/mineralógico da região.

Mais de uma centena de pequenas fábricas de ferro floresceram principalmente no Vale do Rio Doce.

Em 1828 é instalada em São Miguel do Piracicaba a Forja Catalã de Jean de Monlevade – Foto: Arquivo ArcelorMittal

Em 1827, em São Miguel do Piracicaba, o francês Jean de Monlevade solicita ao visconde de Caeté apoio do comandante geral Guido Tomás Marlière que prestasse todo auxílio, através das Divisões Militares do Rio Doce – DMRD no transporte de sua Forjas Catalã, adquirida na Inglaterra, desde a barra do rio Doce em Regência, até São Miguel do Piracicaba, atual João Monlevade. Segundo o historiador Haruf Salmen Espindola, a pequena usina de 475 arrobas (6.982,5 quilos), deixa as águas do rio Piracicaba no Porto de Canoas, abaixo de Antônio Dias, e segue por terra. Jean de Monlevade adquire uma jazida de minério nos arredores e instala a usina para atender a demanda reprimida de ferramentas para mineração, agricultura e doméstica.

As principais jazidas de minério de ferro pertenciam a empresas estrangeiras, sendo as minas do Cauê, Conceição, SantÂna e Giraus, em Itabira, pertenciam a Itabira Iron Ore Company. As minas de Esmeril e Penha, também em Itabira, pertenciam a Brazilian Iron ande Still. Já as jazidas do Pico do Itabirito e da Serra do Curral, pertenciam a The Saint John Del Rey Gold Mining e a Mina de Gongo Sogo, pertencia a Imperial Brasilian Mining Association.

O minério de ferro no século XIX tornara-se pauta entre as discussões sobre se este mineral seria item de exportação ou de industrialização do país. Deficiência do sistema de transporte, carência de energia elétrica, atraso tecnológico e escassez de capital eram alguns fatores de estrangulamento do desenvolvimento a partir do ferro. A partir do estabelecimento da Escola de Minas de Ouro Preto em 1876, a academia contribuiu significativamente para incentivar a produção de ferro no final do século XIX. Com a melhoria de técnicas de mineração e manufatura, os antigos processos à base de sucata de ferro foram substituídos pelos fornos a carvão e refinaria de aço.

Após o Acordo de Washington na 2ª Guerra, o minério é então nacionalizado, tornando-se vital para o desenvolvimento da siderurgia nacional.

A primeira corrida do gusa no alto-forno nº 1 da Acesita, em 1949 – Foto: Arquivo Fundação Aperam Acesita

No distrito de Timóteo, no povoado de Ipatinga, além de madeira e água abundante, encontrava-se as terras planas mais próximas das minas de minério, com topografia favorável para a instalação de empreendimentos siderúrgico de grande porte.

Na ponta da história, isto é, no presente, Timóteo, Ipatinga e João Monlevade celebram 62 anos no mesmo dia, 29 de abril, e na mesma trajetória, o desenvolvimento da siderurgia no país.

Ambas as cidades produzem aço, porém motivadas por diferentes demandas em seu tempo. A antiga Usina de São Miguel, depois Cia. Belgo Mineira e hoje ArcelorMittal, atendia a demanda reprimida por ferramentas para a mineração aurífera. A Aços Especiais Itabira – Acesita, hoje, Aperam South America, iniciou a fabricação do aço para atender a escassez do metal, devido a Segunda Guerra Mundial consumir uma enorme quantidade de aço na indústria bélica. Já a Usiminas, o primeiro investimento japonês no exterior após a 2ª Guerra, foi criada para dar apoio ao plano de industrialização do Governo JK. A Usiminas forneceria aço para infraestrutura e superestrutura da nascente industrialização, bem como a matéria prima para a fabricação de bens de consumo. A indústria automobilística foi a maior compradora de aço.

A construção do alto-forno nº 1 da Usiminas – Foto: Arquivo Usiminas

A Acesita fabrica aço inoxidável e a Usiminas e ArcelorMittal, aço carbono.

João Monlevade, ainda distrito de Rio Piracicaba, em 1928 instala uma Forja Catalã. Em 1840, a usina fornecia produtos para as grandes companhias inglesas que exploravam o ouro, tais como a Saint John d’El Rey (Morro Velho) e a Imperial Brasilian Mining Association (Gongo Soco), além de produzir ferramentas agrícolas e abastecer o comércio de Ouro Preto e outras vilas.

Timóteo, ainda distrito de Antônio Dias, abrigou a Cia. Aços Especiais Itabira – Acesita, no ano de 1944, vindo a realizar a primeira corrida de gusa em 1949. A partir da década de 1970, a Acesita passou a produzir o aço inoxidável, sendo a única na América Latina.

Em Ipatinga, também distrito, de Coronel Fabriciano, em 1958 inicia a instalação da Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais – Usiminas, sendo inaugura em 1962. Como a maior siderúrgica do país, a Usiminas passa a fornecer o aço para a nascente industrialização nacional.

Em 1964, ambas cidades são emancipadas, já com suas siderúrgicas em concomitância global.

Antes mesmo da primeira corrida do ferro gusa na Acesita ou mesmo antes da chegada da Estrada de Ferro Vitória a Minas, na década de 1920, o metalurgista Barão de Eschwege contratado pela coroa portuguesa passou pela região do Baixo Piracicaba, pesquisando o potencial mineral de Minas Gerais. Segundo o livro, A História de Timóteo, publicado pela escritora Zaíra de Carvalho, o nome do ribeirão Timóteo foi dado na época pelo Barão, em homenagem ao seu afilhado, Thimoteo.

Segundo o documentarista e jornalista Márcio de Paula, o documento de Sesmaria de Francisco de Paula e Silva Santa Maria, datado de 1832, havia a indicação do Ribeirão Timóteo.

A ferrovia encurtaria a distância entre as terras altas do Médio Piracicaba, do quadrilátero ferrífero, às terras baixas do Baixo Piracicaba. O Minério na porta das usinas, madeira, água e logística ferroviária, era tudo que os novos empreendimentos precisavam para promover a transformação na região conhecida como Vale do Aço.

Em ritmo acelerado, as cidades de Ipatinga, João Monlevade, e Timóteo experimentaram transformações fenomenais advindo da redução do minério de ferro. Suas histórias se entrelaçam entre um dos mais importantes períodos da indústria brasileira, a indústria do aço. Parabéns!

NIVER CMI 2026

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