Segundo o CBH Rio Doce, uma década depois, o desastre afetou toda forma de vida que dele dependia

A fotoógrafa, Elvira Nascimento e o jornalista, Mário de Carvalho Neto, sobre a lama que inundou a Escola Municipal Bento Rodrigues, destruída pela avalanche de lama – Foto: Arquivo CG
Na tarde do dia 5 de novembro de 2015, o país foi impactado com a maior tragédia ambiental de sua história. O desastre lançou sobre o leito do Rio Doce cera de 40 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério da Barragem de Fundão, controlada pela Samarco Mineração S/A. A mina, pertencia a um empreendimento conjunto entre a Samarco, e duas das maiores empresas de mineração do mundo, a brasileira Vale S.A. e a anglo-australiana BHP Billiton.

O subdistrito de Bento Rodrigues, foi literalmente varrido do mapa em poucas horas – Foto: Elvira Nascimento
Aquele fatídico dia, culminou na morte de 19 pessoas, deixou sem água potável, cerca de 1,2 milhões de pessoas nos 230 municípios banhados pelo rio.

O subdistrito de Bento Rodrigues, o primeiro a ser atingido, foi literalmente varrido do mapa. O impacto no Rio Doce, atingiu aproximadamente a extensão de 550 km, isto é, da confluência com o Ribeirão Gualaxo, onde a lama atingiu o Rio Doce, até sua foz, em Regência, no litoral do Espírito Santo.

Missa celebrada no que sobrou de uma igreja do século XVIII, no terceiro ano – Foto: Arquivo CG
A bacia do rio tem uma área de drenagem de cerca de 86.715 quilômetros quadrados, sendo 86% em Minas Gerais e o restante no Espírito Santo.
Na época, o IBAMA informou que, das 80 espécies de peixes que ocorrem no rio Doce, 11 estariam ameaçadas de extinção, sendo 12 endêmicas, que só existiam na bacia hidrográfica e que poderiam ser extintas.

Em um dos acordos entre a Vale e autoridades pela reparação integral do rompimento da barragem de Fundão, o valor total ficaria em torno de R$ 170 bilhões.

Elvira Nascimento e o fotógrafo do jornal O Estado de Minas, fotografando um carro soterrado – Arquivo CG
Segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (CBH Doce), foram investidos na década, mais de R$ 240 milhões em ações hidroambientais. O CBH Doce, em balanço das ações realizadas para recuperar os cursos d’água, avalia que a atual situação ambiental da bacia, ainda carrega as marcas deixadas pelo rompimento da barragem. Para o presidente do CBH Doce, José Carlos Loss Junior, o processo de recuperação ainda enfrenta grandes desafios. Ele salientou que a restauração do rio é lenta, sobretudo devido aos inúmeros impactos negativos sobre sua biodiversidade. “Como comitê, acompanhamos de perto a situação do Rio Doce e constatamos que ainda há uma quantidade significativa de rejeitos depositados em seu leito. Se houve remoção, ela foi muito limitada. Trata-se, portanto, de um problema crônico, que deve se estender por muitos anos, enquanto o rejeito permanecer no rio”, afirma.

Na altura do Parque Estadual do Rio Doce, a trajédia deixa suas marcas – Foto: Elvira Nascimento
Loss disse ainda que, além do rompimento da barragem ter alterado profundamente as características físicas do Rio Doce, ele também provocou impactos sociais, culturais e econômicos. “O desastre não afetou apenas o leito do rio, mas toda forma de vida que dele dependia. Prejudicou pescadores, povos indígenas e diversas comunidades ribeirinhas. Logo após o rompimento, em 2015 e 2016, foi firmado o TTAC — Termo de Transação e Ajustamento de Conduta. No entanto, o que se observou ao longo desses anos foi um avanço tímido nas ações. Esse processo de recuperação precisa ser acelerado”, destacou.

Os R$ 240 milhões foram investidos em ações voltadas à proteção de nascentes, saneamento básico, segurança hídrica e gestão de eventos críticos. “Foi atualizado e aprovado em 2023 o Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Doce (PIRH), documento robusto que traça um diagnóstico detalhado da realidade ambiental do território hídrico e define as estratégias necessárias para solucionar problemas identificados, em curto, médio e longo prazos,” explicou Loss.

Como um rio de sangue, o óxido de ferro do minério, alterou significativamente a cor do Rio Doce – Foto: Elvira Nascimento
Em outubro de 2024, nove anos após o rompimento da Barragem de Fundão, um novo acordo para reparação da Bacia do Rio Doce foi assinado. O novo acordo tem foco nos atingidos, na recuperação ambiental e na retomada econômica. As negociações que conduziram à sua elaboração ocorreram no âmbito do Tribunal Regional da 6ª Região (TRF6). De acordo com Loss, o CBH Doce e demais comitês afluentes não foram ouvidos durante as negociações.

Em 2016, um ano após o desastre, moradores de Bento Rodrigues, do MAB – Movimento dos Atingidos pelas Barragens, populares e imprensa, se concentram no que restou do subdistrito – Foto: Elvira Nascimento
Embora os Comitês do Rio Doce não foram incluídos nas reuniões desse processo, a entidade já dispõe de planos estruturados que orientam essas iniciativas e têm potencial para contribuir de maneira significativa para a melhoria da qualidade da água e a revitalização da bacia”.






