PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS 2026

O maior mamífero endêmico do Brasil e o maior primata das Américas, exclusiva da Mata Atlântica, é um dos símbolos da rica biodiversidade do Perd.

COLABORAÇÃO: Vanessa de Paula Guimarães Lopes (doutora pela UFMG) coordena o projeto Primatas PERDidos

FOTOGRAFIAS: Elvira Nascimento

GUIA: Ricardo Lana

O muriqui-do-norte permanece sob monitoramento do projeto científico, Primatas PERDidos – Foto: Elvira Nascimento

Preservar o Parque Estadual do Rio Doce, uma das áreas mais prioritárias para conservação da biodiversidade, tanto em nível estadual como planetário, torna-se um compromisso vital para todos. Sua fabulosa biodiversidade, localizado no Médio Rio Doce, além de abrigar espécies endêmicas e exclusivas, é reconhecido globalmente como Sítio Ramsar (área úmida de importância internacional), Reserva da Biosfera e Hotspot de biodiversidade.

Os primatas são espécies endêmicas da Mata Atlântica – Foto: Elvira Nascimento

É portanto no Perd que desenvolve o mais importante projeto sobre a espécie muriqui-do-norte, o Primatas PERDidos, que visa conhecer melhor o maior primata das Américas e o mais ameaçado.

O projeto Primatas PERDidos, criado em 2018, no Parque Estadual do Rio Doce, leste de Minas Gerais, tem como objetivo atuar na conservação dos primatas nativos da primeira Unidade de Conservação do estado. O nome do projeto faz um trocadilho com a abreviação do nome do parque (PERD) e os primatas que ocorrem no local, que há tempos estavam “esquecidos e perdidos”, já que não eram foco de pesquisas. O parque abriga 5 espécies de primatas: muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), bugio-ruivo (Alouatta guariba), macaco-prego (Sapajus nigritus), sauá (Callicebus nigrifrons) e o sagui-caveirinha (Callithrix aurita).

As 12 populações do muriqui-do-norte são encontradas em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro – Foto: Elvira Nascimento

Atualmente, o projeto em andamento visa a conservação do muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), o maior mamífero endêmico do Brasil e o maior primata das Américas. Uma espécie exclusiva da Mata Atlântica que possui uma população total inferior a 1.000 indivíduos que se encontram distribuídos em 12 populações localizadas em fragmentos florestais nos estados de Minas Gerais (8 localidades), Espírito Santo (3 localidades) e norte do Rio de Janeiro (uma localidade). Em 2016, a grave ameaça de extinção dessa espécie o tornou um dos 25 primatas mais ameaçados de extinção do mundo. A espécie é classificada atualmente como Criticamente Em Perigo pela lista vermelha do ICMBio e pela lista internacional da IUCN.

A palavra “muriqui” é atribuída à forma como esses primatas se movem e se comportam – Foto: Elvira Nascimento

O nome “muriqui” tem origem na língua tupi, um dos idiomas indígenas brasileiros, que significa “gente que bamboleia” e “povo manso da floresta”. A palavra “muriqui” é atribuída à forma como esses primatas se movem e se comportam, refletindo características que eram observadas pelos povos indígenas, fazendo referências ao comportamento de pular entre galhos, ser sociável e dócil, além de gostarem de dar abraços. O nome, portanto, não só designa uma espécie, mas também carrega uma parte da cultura e da história dos povos que habitavam a região antes da colonização. Os muriquis também são conhecidos como mono-carvoeiros por terem a pelagem mais clara, enquanto a face e as mãos são negras, o que lembra os carvoeiros, que queimam carvão vegetal.

As análises genéticas evidenciaram que os muriquis do PERD apresentam uma das maiores diversidades genéticas já registradas para a espécie – Foto: Elvira Nascimento

Considerando a crítica ameaça de extinção do muriqui-do-norte devido à baixa densidade populacional, o ritmo lento de reprodução, somado à migração das fêmeas, sobretudo em áreas florestais isoladas que dificultam a continuidade de populações viáveis, reforçam argumentos frente à necessidade da conservação da espécie. Além disso, os muriquis desempenham uma importante função nos ecossistemas, por serem excelentes dispersores de sementes, podemos considerá-lo como uma espécie guarda-chuva, já que favorece a conservação da paisagem e de outras espécies presentes no local.

Mensalmente a equipe vai para o campo, monitorar os primatas – Foto: Elvira Nascimento

Contudo, poucos estudos foram realizados sobre a espécie no Parque Estadual do Rio Doce, indicando a necessidade de pesquisa para avaliar a sua atual ocorrência e distribuição, o tamanho populacional local e caracterizar as principais ameaças para a conservação desse primata. Com isso, o projeto Primatas PERDidos avalia a ocorrência, tamanho populacional e genética dos grupos remanescentes de muriquis no PERD, com objetivo de proteger a espécie e produzir conhecimento científico. A equipe vai para campo mensalmente atrás desse gigante da floresta, percorrendo trilhas para busca ativa dos indivíduos e registros através de drone com câmera termal em áreas de difícil acesso. Além disso, faz coleta de amostras fecais para análise genética. Ao todo já foram identificados cerca de 214 indivíduos. As análises genéticas evidenciaram que os muriquis do PERD apresentam uma das maiores diversidades genéticas já registradas para a espécie, mas também sinais de endogamia, mostrando a importância de proteger essa população isolada.

A crítica ameaça de extinção do muriqui-do-norte deve-se à baixa densidade populacional e o rítmo lento de reprodução – Foto: Elvira Nascimento

Além das atividades de campo, ações de educação ambiental também são realizadas com crianças em escolas e com adultos em eventos para divulgação de informações, de forma a sensibilizar a população local acerca do maior primata existente nas Américas. Igualmente, são capacitados guias ambientais locais para o ecoturismo de observação de primatas, criando oportunidades de renda e fortalecendo a participação da comunidade na conservação. Essas atividades são essenciais e contribuem para a proteção da espécie, de forma a unir a comunidade local e os pesquisadores. O objetivo é usar a ciência-cidadã no exercício da conservação da espécie a longo prazo.

A Observação de Primatas é uma prática ecoturística, acompanhada por guias ambientais capacitados  – Foto: Arquivo CG

Os muriquis, conhecidos como um dos primatas mais ameaçados do Brasil, são um dos símbolos da rica biodiversidade do Parque Estadual do Rio Doce, a maior área de Mata Atlântica contínua de Minas Gerais. O PERD é um dos poucos locais protegidos que ainda abriga populações desse primata gigante. Por isso, proteger essa espécie é fundamental não apenas para a conservação da espécie, mas também para a proteção da Mata Atlântica, manutenção do equilíbrio ecológico da região, bem como é essencial para a proteção de diversas outras espécies que compartilham esse ambiente.

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