PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS 2026

Coronel Fabriciano, Ipatinga, Santana do Paraíso e Timóteo se desenvolviam antes mesmo do ciclo da indústria do aço, numa economia provincial e de circulação

Há pouco tempó atras, a região hoje Vale do Aço, não passava de uma grande mata que extendia por todo o Vale do Rio Doce. Ainda no século XIX, Guido Thomaz Marlière, Comandante Geral das Divisões do Rio Doce, pacificava os indígenas e Francisco de Paula e Silva recebia uma Sesmaria de Terra nas imediações da Vista Serra Alegre. Parece que foi ontem, o alvorecer da transformação da região, que durante anos permaneceu totalmente isolada, por determinação da Corte.

Na primeira metade do século XX, o que era geograficamente apenas a Depressão do Rio Doce, começa a se transformar na direção de um importante nacionalmente polo industrial.

A região, nas cercanias da Serra dos Cocais e na confluêcia do Rio Piracicaba com o Doce, experimenta uma transformação que a destacava no cenário do então “Sertão Bravo do Rio Doce”.

A agricultura, o extrativismo e os engenhos, contribuiram para a expansão da economia no período pré-industrial – Engenho da Cachoeira em Santana do Paraíso – Foto: Arquivo Particular

Neste período, a agricultura, a pecuária, a madeira, as carvoarias e as nascentes fábricas de ferro delineavam as atividades econômicas predominante em Minas Gerais.

No alto dos Cocais, tropeiros traziam e levavam mercadorias para os antigos centros de mineração aurífera. Melo Viana, é elevado a distrito de Antônio Dias em 1923. Já Barra Alegre, criado em 1948 e instalado como distrito em 1950, exportava o café de Ipaneminha, Ipanemão e Tribuna para Caratinga. No antigo Taquaraçu – Santana do Paraíso, na Cachoeira do Engenho, um robusto maquinário pilava café, produzia rapadura e beneficiava algodão.

A Fazenda Esperança, de José Anatólio Barbosa, em Barra Alegre, foi um próspero centro de benefiaciamento de café do Ipaneminha, Ipanemão e Tribuna – Foto: Óleo sobre tela de Cibele Pinto de Oliveira Barbosa, filha de Waldecy Pinto

O apito das locomotivas a vapor se aproximando no horizonte selvagem, anunciava um novo tempo.

Antes da era da indústria, a região ainda tomada por uma grande mata, tinha como única tecnologia disponível, os telégrafos das estações ferroviárias de Ipatinga e do Calado (Coronel Fabriciano). Os meios de transportes eram as tropas, as canoas e os trens da Vitória a Minas.

As tropas, as canoas e os trens da EFVM eram os únicos meios de transportes – Foto: Arquivo particular

Não havia estrada para lugar algum, apenas trilhas abertas pelos tropeiros, por onde os pioneiros aqui chegaram e se estabeleceram, seja no comércio, na indústria artesanal ou na área intelectual.

Este era o cenário que o pioneiro Waldecy Pinto, vivenciou desde que nasceu em Santana do Paraíso, em 1934 até se mudar para Coronel Fabriciano, onde vive até os dias atuais.

O extrativismo da madeira e do carvão alterou drasticamente a paisagem original – Foto: Arquivo particular

Pioneiros

Nossa história começa em 1928, quando aqui chegou Geraldo Antônio Pinto, pai de Waldecy Pinto.

Geraldo Antônio Pinto em 1928 chega à região, vindo de Figueira do Rio Doce (Governador Valadares), emancipada de Peçanha em 1938), para gerenciar um armazém de propriedade de Firmino Batista, próspero comerciante valadarense. Seu armazém, localizava-se em frente a estação ferroviária do Calado (Coronel Fabriciano). O pioneiro Waldecy Pinto dizia que: por influência da EFVM, o Calado se destacava na região para onde dirigiam os moradores de Barra Alegre, Ipatinga e Santana do Paraíso, para suprirem suas necessidades. Estes consumidores chegavam ao Calado em cavalos para comprar querosene, sal, tecidos, medicamentos entre outros artigos não produzidos na região. Nas proximidades da estação, já se prenunciava a formação de um vigoroso comércio de grosso e varejo.

Geraldo Antônio Pinto, pai de Waldecy, gerencia um armazem de Firmino Batista, na Rua Pedro Nolasco, nas proximidades da estação ferroviária do Calado (Coronel Fabriciano) – Foto: Gilson Lana

Por volta de 1929, ao encerrar as atividades do armazém, e mudar para Santana do Paraíso, Geraldo Pinto conhece Astolphina Mendes Lopes, com quem se casou em 1930.

No ano de 1933, em Santana do Paraíso, ainda distrito de Mesquita, Astolphina deu à luz a seu segundo filho, Waldecy Pinto, o protagonista da nossa história que contaremos a seguir.

Grande mata

Ainda criança, com seus pais, Waldecy muda-se para Figueira do Rio Doce.

Durante sua adolescência, nas férias escolares, ele retornava a Santana do Paraíso, para a casa de seu tio, Lafayette Lopes, então fornecedor de carvão para a Cia. Belgo Mineira e lenha para as locomotivas da EFVM. Waldecy descia na estação de Ipaba, e seguia a cavalo até Santana do Paraíso.

Na localidade, a maior atividade econômica era o engenho de João Matias, nos pés da cachoeira, conhecida hoje como Cachoeira do Engenho. O maquinário movido à água, construído por Antônio Pacífico da Rocha, além de produzir rapadura e beneficiar cereais, beneficiava também algodão. Waldecy recorda do tempo em que auxiliava João Matias separar e embalar as melhores sementes de algodão para vender.

Preservado parte de sua estrutura, o engenho da cachoeira, do tempo que Santana do Paraíso chamava-se Taquaraçu, foi a força motriz do desenvolvimento local – Foto: Arquivo CG

De suas viagens, Waldecy recorda que nos dois lados da linha, desde Figueira ao Calado, uma grande mata cobria toda a região do Vale do Rio Doce. Após a exploração do carvão e da madeira pela siderúrgica de João Monlevade e a ocupação da região pela agropecuária, o que era mata transformou-se em pastagens e cultivo de eucalipto. Waldecy lembrava que na localidade onde hoje está instalada a fábrica de celulose Cenibra, localizava-se uma densa mata conhecida como Mata do Alemão.

Mata existente onde foi instalada a antiga Acesita, atual Aperam South America – Foto: Arquivo particular

Casamento com Berenice de Oliveira

Em 1953, em uma festa em Santana do Paraíso, Waldecy conhece sua futura esposa, Berenice de Oliveira Pinto, filha de José Anatólio Barbosa. Ali inicia o namoro que consolidou em casamento no ano de 1956. Durante o namoro, ele ingressa na recém inaugurada Cia. Aços Especiais Itabira – Acesita, no distrito de Timóteo, então pertencente a Coronel Fabriciano. Na siderúrgica, Waldecy trabalhava no Departamento de Matas e Carvão e morava no alojamento da empresa nas proximidades da usina. Nos finais de semana e feriados, Waldecy pegava sua bicicleta e enfrentava uma longa jornada de cerca de cinco horas até a localidade de Barra Alegre, encontrar com Berenice. Ele recorda que atravessava o rio Piracicaba de bote, seguia pela margem da ferrovia passando pela antiga fazenda de Dr. Rubem Siqueira Maia, hoje, o condomínio Aldeia do Lago. Dali, seguia até o posto telegráfico de Córrego Nossa Senhora, no atual bairro Bom Retiro. Da localidade, Waldecy seguia até Ipatinga, um pequeno povoado que contava com cerca de 20 casas, sendo em sua grande parte, de madeira. De Ipatinga, Waldecy atravessava a fazenda de Jair Gonçalves, hoje o bairro Cidade Nobre, de onde seguia até Barra Alegre, antigo povoado de Água Limpa. No retorno para a Acesita, Waldecy deixava Barra Alegre às 2 horas da manhã, para pegar o serviço às 7 horas na siderúrgica. Segundo ele, não encontrava sequer uma alma viva pelo caminho.

Fazenda Esperança em Barra Alegre

Waldecy e a esposa Berenice em Barra Alegre, onde ela nasceu – Foto: Arquivo particular

Antes mesmo de Ipatinga se tornar distrito de Coronel Fabriciano em 1953, em dezembro de 1948, Barra Alegre tornara-se distrito fabricianense. Com a emancipação de Ipatinga em abril de 1964, Barra Alegra passa a integrar ao novo município ainda como distrito.

Nos primórdios de Barra Alegre, ainda denominado Água Limpa, chega à região na década de 1920, vindo da comunidade de Córrego do Lage em Santa Maria de Itabira, Selim José de Sales e sua esposa, Canuta Rosa de Oliveira Barbosa. Com o casal, chega também o então empregado de Selim, José Anatólio Barbosa, irmão de Canuta. Eles se estabelecem em Santana do Paraíso.

José Anatólio casa com Lucinda Fernandes Madeira e instalam-se em Água Limpa.

Selim, morando em Santana do Paraíso, em 1950, compra a Fazenda Barra Grande, de Pedro Soares, renomeando-a Fazenda Betânia. Ali, se criava gado e produzia rapadura. Suas terras, hoje transformada no Bairro Betânia e Canaã, confrontava com as terras de Jair Gonçalves, proprietário da Fazenda Prato Raso.

Residindo em Água Limpa (Antigo nome de Barra Alegre), José Anatólio Barbosa produzia carvão na região de Águas Claras. Em Água Limpa, ele instala um armazém e a sede do que veio a ser a Fazenda Esperança. Seu armazém passa a atender a todos os plantadores de café da região do Ipaneminha, Ipanemão e Tribuna, recebendo como pagamento o próprio café. Sua vocação empreendedora, faz de sua fazenda um importante polo de beneficiamento de café, instalando ali um maquinário completo de pilar os grãos. A colheita descia das montanhas que delimitam a Serra dos Cocais, até Barra Alegre em lombos de animais. Waldecy disse ainda que o nome Barra Alegre, em substituição do nome Água Limpa, foi instituído por José Anatólio, porém ele não soube dizer a motivação.

Na Fazenda Esperança, José Anatólio Barbosa embarcava o café ensacado em seu caminhão, um International KB-5, levando-o até Caratinga, desembarcando-o nos antigos armazéns do IBC. Segundo Waldecy, José Anatólio em seu caminhão seguia por Timóteo em estrada de terra, atravessava a Mata do Parque, até chegar à Ponte Queimada. Dali, da travessia sobre o Rio Doce, seguia por Bom Jesus do Galho, até chegar ao destino final, Caratinga.

A Fazenda José Teixeira, na Tribuna, hoje, um importante atrativo turístico no “Ipatinga Rural Roteiro Turístico”, além de seu extenso cafesal beneficiado na Fazenda Esperança, acolhia tropeiros para descanso – Foto: Elvira Nascimento

Antes de se estabelecer como exportador de café, José Anatólio e José Ferreira da Costa – Juquita (pai do então empresário no ramo de bebidas, João Costa), transportavam toucinho e rapadura em suas tropas até Santa Bárbara. A cidade histórica era conhecida como “ponta de trilho” devido a Estrada de Ferro Central do Brasil, vinda de Belo Horizonte, terminar naquele lugar.

Emancipação de Ipatinga e Timóteo

Já formado como Técnico em Contabilidade pela escola Irmãos Sales, de Governador Valadares, trabalhando na Acesita e atuando para as empresas J. Costa e Filhos Ltda., de João Costa e Irmãos Bragança, Waldecy muda-se para Coronel Fabriciano em 1965.

Nessa década, ele afirma que os distritos de Ipatinga e Timóteo se sentiam em total abandono em relação à prefeitura de Coronel Fabriciano. A situação motiva então a articulação por parte dos distritos na direção de suas respectivas emancipações.

Ele conta que a liderança que mais trabalhou para a emancipação de Ipatinga e Timóteo, foi o ex-prefeito de Fabriciano, Cyro Cotta Poggiali. O político exerceu função de diretor na Acesita, foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Coronel Fabriciano em 1961, vereador por Timóteo e prefeito de Coronel Fabriciano de 1963 a 1967.

Emancipados em 1964, Ipatinga e Timóteo, diversas reuniões sobre as emancipações ocorreram na Fazenda Esperança, em Barra Alegre – Foto: (Construção da prefeitura de Ipatinga), Arquivo particular

As reuniões mais decisivas sobre a emancipação dos distritos, aconteceram na Fazenda Esperança, de José Anatólio, que contava sempre com as presenças de Raimundo Anício Alves, comerciante e também vereador pelo distrito de Ipatinga nos anos 1962/64, José Carvalho, Raimundo Nonato, Manoel Valadares, José Drumond, Duzinho, vereador por Timóteo no mesmo período, e outros. Waldecy disse ainda que o deputado Simão da Cunha Pereira, por Peçanha, foi um importante apoiador e articulador da emancipação junto ao governo de Minas, José de Magalhães Pinto. Em algumas reuniões cujo tema era a emancipação, Waldecy atuou na transcrição das atas. Nessa época, Barra Alegre contava com cerca de 100 famílias residentes.

Aos 92 anos, ainda exercendo a profissão de contador, Waldecy Pinto guarda na memória uma trajetória de vida marcada por pioneirismos econômicos e transformações fenomenais – Foto: Arquivo CG

Ainda atuando como técnico em contabilidade, Waldecy mora em Coronel Fabriciano até os dias atuais. Na cidade, o pioneiro foi um dos articuladores para a criação do bairro Santa Helena, na região central. No passado, a região onde é hoje o bairro, abrigava a Serraria Santa Helena, uma destacada beneficiadora de madeira do Vale do Rio Doce.

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