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Revista Caminhos Gerais

Cidade do Colar Metropolitano do Vale do Aço, antigo lugarejo rural, emancipa-se após transformar-se num projeto urbanístico dotado de avançados conceitos de sustentabilidade

Na década de 1970, um avançado e sustentável projeto urbanístico (no alto) patrocinado pela Florestal Acesita, reestrutura a comunidade rural pertencente a Córrego Novo – Foto: Arquivo particular

Criada sob um projeto arquitetônico patrocinado pela Florestal Acesita, que levava em conta elementos socioculturais bem à frente do seu próprio tempo, Pingo-d´Água desenvolveu-se sob conceitos de sustentabilidade até então inovadores em cidades fora do âmbito das cidades siderúrgicas da atual Região Metropolitana do Vale do Aço.

Muito além de um simles conjunto habitacional, Pingo´Água contava com infraestrutura básica voltada à qualidade de vida, ao aprendizado e ao empreendedorismo – Foto: Arquivo particular

Apesar de sua emancipação ser relativamente recente, em 21 de dezembro de 1995, sendo instalado em janeiro de 1997, há resquícios na região que remontam ao final do século XVIII. Nessa época foi aberta a Estrada do Degredo, ligando Ouro Preto ao Sertão do Cuité, atual Conselheiro Pena no Rio Doce, que cruzava o atual território municipal.

Entretanto, a formação do município tem sua origem na ocupação do lugar por trabalhadores rurais, que na década de 1940, passaram a atuar na exploração da madeira e carvão vegetal para a então Florestal Acesita, atual Acesita Energética, subsidiária da Cia. Aços Especiais de Itabira – Acesita, hoje, Aperam South America. Neste período, o território de Pingo d´Água pertencia a Córrego Novo.

Reconstrução da Ponte Queimada sobre o Rio Doce na década de 1970, conectando o território de Pingo d´Água à usina em Timóteo – Foto: Arquivo particular

Em seus primórdios, Pingo d´Água não passava de um precário acampamento de trabalhadores rurais, sem a infraestrutura mínima condizente com as necessidades básicas das diversas famílias ali presente. Não havia escola, abastecimento de água e nem mesmo atendimento ligado à área da saúde dos moradores.

Urbanização

Constava no projeto das casas, elementos fornecidos pela população, coletados em pesquisas – Foto: Arquivo particular

Diante daquela situação, em 1979, a empresa Florestal Acesita, contratou o arquiteto Sebastião Calais de Oliveira e o sociólogo Dimas, para elaborar um projeto habitacional que descaracterizasse as áreas rurais, transformando-as em áreas urbanas, com toda a infraestrutura básica voltada à qualidade de vida, ao aprendizado e ao empreendedorismo. A transformação do lugar que passaria a receber serviços urbanos, possibilitaria aos habitantes ter acesso aos recursos financeiros do BNH por meio da Caixa Econômica de Minas Gerais e construir suas moradias no conceito arquitetônico que preservasse os hábitos e costumes familiares tradicionais. Esta ambientação humanizada de espaços foi concebida após ampla pesquisa sociológica entre a população. Dentre as premissas do projeto, previa cozinhas maiores que os demais ambientes, sabendo-se que era ali que a família se reunia para conversar e conviver. Outro item que foi avaliado na pesquisa como costume, foi a construção do banheiro com a porta para o lado de fora da casa. Cada casa receberia sementes e orientação para implementar uma horta com variedade de verduras e legumes no quintal. Cada lote doado pela Florestal Acesita media 450 m2, permitindo plantios de horta e árvores frutíferas. Nos arredores das habitações, com mais de 600 casas, foi construído bosques comunitários para que os moradores coletassem lenha para seus fogões, já que todas as casas foram adaptadas com fogão a lenha.

O Ginásio Pingo d´Água, bem como o centro comercial, a maternidade, o templo religioso entre outros, foram construídos pela Florestal Acesita – Foto: Arquivo Particular

Para a construção das casas, seguindo rigorosamente os critérios socioambientais do projeto, o empregado financiava em 20 anos a construção. Caso o empregado se desligasse da Florestal Acesita, esse poderia continuar morando na casa, desde que mantivesse o pagamento ao BNH, caso contrário ele deveria vender a casa para a empresa repassar a outro empregado.

A maternidade atendia à comunidade que se estruturava – Foto: Arquivo particular

Por medida de economia, as casas foram construídas com blocos de cimento, sem forro no teto e o piso com cimento grosso. Os muros feitos à base de solo-cimento, uma espécie de terra socada com cimento. A mão de obra, toda ela, contratada na própria comunidade. Por este modo construtivo, o arquiteto assegurava que a casa teria um custo infimamente menor que os tradicionais.

A primeira igreja católica – Foto: Arquivo particular

A água seria canalizada de uma caixa d´água de 100 mil litros, armazenada de um poço artesiano e o esgoto descarregado em fossas secas no quintal. No âmbito da comunidade seria construído um centro comercial e uma escola que durante o dia funcionava o curso primário e a noite, o ginasial.

Escola de Artes e Ofício

Uma Escola de Artes e Ofício para jovens e adultos era imperativo no projeto – Foto: Arquivo particular

O aprendizado de novos ofícios e do artesanato faziam parte da formação dos jovens  – Foto: Arquivo particular

O projeto previa também a construção de uma Escola de Artes e Ofício para jovens e adultos. Para a Florestal Acesita, era de fundamental importância à profissionalização dos moradores ou mesmo proporcionar a noção básica de como fazer. Diversas atividades profissionalizantes seriam oferecidas aos moradores. Com ferramentaria e maquinário próprio, a Escola de Artes e Ofício ensinava tecelagem, carpintaria, serviços de pedreiro, marcenaria, artesanato e costura.

Sob orientação, os jovens aprendiam a lidar com a fabricação de utensílios – Foto: Arquivo particular

Aprendendo o artesanato como cordas e linhas – Foto: Arquivo particular

A arte de tear – Foto: Arquivo particular

Produção de artesanato – Foto: Arquivo particular

Constava também nos planos da Florestal Acesita, implantar na comunidade uma indústria para beneficiar folhas de eucaliptos da espécie citriodora na fabricação de óleo para saunas e sabonetes. Essa opção de trabalho, evitaria consequentemente o êxodo rural para aqueles que não queriam trabalhar no campo.

Diversas outras unidades habitacionais foram também contempladas neste plano, como Limoeiro, Belém, Revés do Belém, Ipanema, Pedra Corrida. Pingo d´Água recebeu o maior número de moradias, cerca de 650 unidades. Este convênio foi o primeiro assinado entre o Sistema Nacional de Habitação – BNH com uma empresa particular para construir casas na área rural. As edificações que tinham funções sociais foram construídas e doadas pela empresa, como escola, praça, centro comercial, templo religioso, maternidade, caixa d´água coletiva entre outros.

Com o passar do tempo, moradores transformam casas em estabelecimentos comerciais – Foto: Arquivo particular

Sob um projeto sustentável de moradia, baseado nos costumes das pessoas que ali permaneceriam, Pingo d´Água capacitou-se a se tornar distrito de Córrego Novo em 22 de junho de 1994, mediante a lei municipal nº 459. Sua emancipação foi decretada um anos após a criação do distrito, em 21 de dezembro de 1995, pela lei estadual nº 12.030.

A novidade chamou a atenção da imprensa, como o jornal, O Estado de Minas

Este amplo processo de urbanização essencialmente humanizado, pensado muito além de seu próprio tempo, serviu também de inspiração para as políticas socio culturais implementadas anos depois pela Fundação Aperam Acesita, que tem incorporado em seu DNA, o histórico conceito da sustentabilidade.

A plantio de eucalipto é uma das atividades econômicas tradicionais de Pingo d´Água – Foto: Arquivo CG

Atualmente, Pingo d´Água, inserido no Colar Metropolitano do Vale do Aço, tem uma população que aproxima-se de cinco mil habitantes segundo IBGE. Seu território abrange remanescentes importantes de Mata Atlântica e lagoas, que ajudam a compor a zona de amortecimento do Parque Estadual do Rio Doce (PERD). Tem como principais fontes de renda a agropecuária, o comércio e a prestação de serviços.

Com seu território banhado pelo Rio Doce, Pingo d´Água preserva sua Área de Preservação Ambiental – APA, destinada à zona de amortecimento do Parque Estadual do Rio Doce – Foto: Elvira Nascimento

Pingo-d’Água conta com uma Area de Proteção Ambiental – APA, destinada a preservar os remanescentes de Mata Atlântica, que envolvem áreas classificadas como de “Importância Biológica Muito Alta”, com fauna e flora diversificada e registros de espécies de primatas e aves ameaçadas. A APA municipal, aliada a áreas de preservação nos municípios vizinhos, constitui um corredor ecológico até o Parque Estadual do Rio Doce.

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